As origens da capoeira?

A ancestralidade angolana de uma arte marcial globalizada

A capoeira tem sido vinculada a Angola desde os primórdios. Angolanos foram proeminentes entre os africanos escravizados que jogavam capoeira nas ruas e largos do Rio de Janeiro, Salvador e outras cidades portuárias no início dos oitocentos. Na época, 80% de todos os africanos no Rio de Janeiro vinham da África Centro-Ocidental (territórios dos atuais Gabão, Angola e duas Repúblicas do Congo).

 Até a década de 1960, quando o pintor luso-angolano Albano Neves e Sousa (1921-95) veio ao Brasil, a capoeira não tinha sido relacionada de maneira consistente com nenhum jogo de combate africano específico. Observando a capoeira nas academias dos mestres Bimba e Pastinha na Bahia, Albano lembrou do engolo, um dos jogos de combate que tinha assistido e retratado durante os anos 1955-56 no sul de Angola. Ele descreveu o engolo como acontecendo numa roda, acompanhado de palmas e canto, durante a celebração do efiko, o ritual de iniciação feminina.

O imbondeiro é uma arvore que parece ter suas raízes expostas, por isso, foi o símbolo escolhido para o nosso projeto.

 

Querendo mostrar, através de sua obra, que Angola era a “mãe” do Brasil, Albano argumentava que a capoeira teria se originado dessa “dança da zebra”. Dois eminentes brasileiros imediatamente encamparam sua ideia: Mestre Pastinha e Luís da Câmara Cascudo. Pastinha, o mais conhecido mestre do estilo Angola, estava interessado em dar mais visibilidade aos vínculos entre a capoeira e suas raízes africanas. A partir desse momento, seus estudantes – muitos dos quais viriam a ser mestres famosos – ouviram o mestre contar a estória da dança da zebra. Câmara Cascudo, o folclorista potiguar, disseminou nos seus escritos a informação que recebeu de Neves e Sousa, particularmente no seu famoso Dicionário de Folclore brasileiro.

 O mito do engolo como origem da capoeira tornou-se mais conhecido na década de 1990, quando a política identitária brasileira fez das origens da capoeira, em particular de suas raízes africanas, uma questão importante para muitos praticantes. Foi a partir das comemorações do centenário da abolição da escravidão, em 1988, que aumentou o questionamento do significado da emancipação dos escravizados em 1888.

O Movimento Negro criticava o 13 de maio como uma “falsa abolição” que não trouxe benefício algum para os alforriados: os libertos não receberam a terra que tinham cultivados até então, nem foram beneficiados com educação. No pós-abolição, tudo o que fosse associado à África era considerado “bárbaro” e muitas vezes reprimido pela polícia do novo regime republicano. Daí a necessidade de descolonizar o olhar do Brasil sobre a África, valorizando seus vínculos e tornando-os mais visíveis.

Como Mestre Moraes lembrou, a estória do engolo provia uma referência africana concreta nas discussões sobre as origens da capoeira e reforçava a sua africanidade. Ao mesmo tempo, outros mestres enfatizavam a importância dos processos formativos da capoeira ao redor da Bahia de Todos os Santos, no contexto mais amplo da cultura afro-baiana. A multiplicidade das tradições da capoeira pode ser constatada nas cantigas dos mestres Boca Rica e Felipe (extras 1 e 2), que expressam pontos de vista diferentes sobre as origens da capoeira.

Como muitos capoeiristas, mestre Cobra Mansa e o historiador Matthias Röhrig Assunção sonhavam em descobrir mais sobre a legendária dança da zebra. Graças a um pequeno apoio da Universidade de Essex, viajaram para Angola em 2006. Foram primeiro a Luanda, onde a capoeira brasileira já estava bem estabelecida e onde arcos musicais são usados comumente na música popular. No entanto, ninguém parecia saber coisa alguma sobre o engolo. Como a ajuda de capoeiristas angolanos, foram ao Lubango, na província da Huíla e conheceram a kambangula, a luta de mãos abertas, já retratada por Neves e Sousa. Mas foi preciso viajar ainda mais para o sul, por estradas esburacadas e trilhas poeirentas para encontrar o santo graal da capoeira. Em Mucope, o mesmo povoado onde Neves e Sousa havia retratado a dança da zebra cinquenta anos antes, finalmente viram o engolo sendo jogado.

Demorou mais quatro anos para conseguirem um financiamento do Arts and Humanities Research Council britânico e retornar a Angola por duas vezes (2010 e 2011), agora acompanhados do cineasta Richard Pakleppa e da etnomusicóloga Christine Dettmann. Com a ajuda dos intérpretes angolanos Angelina Lombe e Tchilulu Ntchongolola, a equipe revisitou os lugares da primeira viagem, e também ampliou a pesquisa visitando outros povoados e comunidades na região. O filme é parte de um projeto de pesquisa mais amplo que visa documentar os instrumentos musicais, as danças e os jogos de combate do sudoeste angolano, em particular do povo nhaneca.

O filme documentário Jogo de Corpo – Capoeira e Ancestralidade é o principal resultado desse projeto de pesquisa e foi lançado em 2014, no Festival Internacional de Cinema de Zanzibar. A direção é de Richard Pakleppa, Matthias Röhrig Assunção e Cobra Mansa. O filme segue o mestre de capoeira Cobra Mansa na busca das raízes de sua arte pelo Brasil e por Angola. Veja o trailer aqui: