Praça XV: a Capoeira no Rio começou aqui?

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Largo do Paço (extrato). Gravura de Friedrich Salathé (1793-1858), do album Souvenirs de Rio de Janeiro (1834), baseada na aquarela de Johann Steinmann (1800-1844).

A Praia da Piaçaba

Pelas águas da Baía da Guanabara chegaram indígenas, invasores, colonizadores e centenas de milhares de africanos escravizados. Nos primeiros séculos da colonização, muitos escravos eram desembarcados perto do então chamado Largo do Paço. Segundo alguns cronistas, a capoeira carioca teria nascido ali, na antiga praia da Piaçaba, entre os negros de ganho, pescadores, mariscadores, peixeiros e carregadores.

O terreno em frente à praia foi ocupado pelos carmelitas e virou o Terreiro do Convento do Carmo. Os monges segundo o cronista Vivaldo Coaracy, tinham a fama de serem “turbulentos, desordeiros, e indisciplinados”. Sempre provocavam a intervenção das autoridades, por exemplo, quando não permitiam passagem de préstitos fúnebres pela frente do Convento e mandavam seus escravos armados de cacetes dissolver os cortejos a pau.

A capital do Brasil Colônia

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O chafariz no detalhe da gravura de Debret, 1934.
Os frades cederam parte do terreno para o governo, que ali construiu o palácio dos governadores. Concluído em 1743, veio em seguida abrigar os vice-reis do Brasil. Atrás do Paço, onde hoje é localizado o palácio Tiradentes, havia a Quitanda dos Negros. Nesse beco, pretas minas, geralmente forras, vendiam seus quitutes. O Rio de Janeiro colonial se desenvolveu a partir dali, onde convergiam o porto, o comércio, o governo e a igreja. Esse espaço densamente povoado era disputado pela gente do porto, comerciantes, administradores, escravizados, forros e livres ‑ os fidalgos e a ralé.

O Vice-Rei certa vez reclamou da algazarra vinda da Quitanda, mas as pretas minas tinham o alvará da Câmara e ficaram. Em outras palavras, os grupos populares tentavam defender seu espaço no centro da cidade e, ali, o espaço de sociabilidade mais denso foi o Paço.

Mestre Valentim, filho de uma negra crioula e de um fidalgo português, foi o responsável pelo projeto do Chafariz, inaugurado em 1770, que abastecia os navios com a água encanada do rio Carioca. A construção, naquela época situada logo ao lado do cais, como aparece em muitas pinturas, hoje fica na parte central do largo.

O pelourinho, outro monumento emblemático de poder e justiça senhorial, erguido no meio da praça na época colonial, não existe mais hoje. Com a chegada da Corte, o Paço virou residência oficial da realeza e sede do governo. Mas o rei, e depois dele os imperadores do Brasil, preferiram morar na Quinta da Boa Vista, mais sossegada.

O Largo do Paço de fato constituía um espaço de sociabilidade importante para todos os moradores e foi retratado por viajantes e cronistas. A gravura de Friedrich Salathé (1834), baseada em aquarela de seu amigo Johann Jacob Steinmann, retrata vários grupos sociais ocupando o Paço, entre eles, dois moleques engajados num jogo acrobático que lembra alguma coisa da movimentação da capoeira.

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Detalhe da gravura Largo do Paço, de Friedrich Salathé.

Para saber mais:

Vivaldo Coaracy. Memórias da Cidade do Rio de Janeiro. Belo Horizonte e São Paulo: Itatiaia e EdUSP, 1988.

Antonio Colchete Filho. Praça XV. Projetos do espaço público. Rio de Janeiro: Sete Letras, 2008.

De los Rios Filho, Alfonso Morales. O Rio de Janeiro Imperial. 2 ed., Rio: Topbooks, 2000 (1 ed. 1946).

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