Mestre Zé Pedro

Mestre Zé Pedro

Por:  Jorge Felipe Columá, Dr. em Educação Física e Cultura.

Thiago de Paula dos Anjos de Souza, Bacharel em Educação Física.

Rômulo Reis, Dr. em Ciências do Exercício e Esporte.

 

Zé Pedro e Paulinho Castro sentados em mesa de bar. Fonte: Acervo André Lacé.

A capoeira como fenômeno sociocultural se manifestou no Rio de Janeiro de forma singular, normalmente ligada à sobrevivência e à malandragem. Perseguida duramente pelo Governo no século XIX, a capoeiragem carioca resistiu e se adaptou feito um camaleão, jogou conforme a razão e se ramificou criando linhagens diversificadas de grupos, mestres e discípulos. Dentre os mestres de capoeira existe a figura de um lutador de vale tudo e faixa preta de jiu-jitsu, que se destacou com gingado, pontapés e jogo duro nas rodas de capoeira e da vida– o grande Mestre Zé Pedro, líder da lendária roda de capoeira de Bonsucesso nos anos 1970.

Começaremos nossa narrativa a partir de uma entrevista com o Mestre Zé Pedro em uma tarde quente no subúrbio de Olaria no Rio de Janeiro. Paraibano da cidade de Santa Rita, José Pedro da Silva chegou ao Rio de Janeiro aos seis anos de idade após ter perdido seu pai. Mesmo com poucos recursos, conseguiu se alfabetizar aos oito anos e seguiu a vida sem nunca abandonar os estudos, deixando sempre a força de vontade guiá-lo para frente.

Ingressou na Marinha do Brasil como marujo, alegando na época idade maior que a sua, maneira que encontrou para sobreviver. Prestou concurso para Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) onde foi soldado. Formou-se em Direito após seus 30 anos de idade. Especializou-se em combate, inclusive com o curso de guerra na selva, no Centro de Instrução em Guerra na Selva (CIG), em Manaus/AM. Em sua vida militar ascendeu até o posto de Major, sendo um dos fundadores do Batalhão de Operações Especiais o (BOPE) da PMERJ, instituição onde se tornou uma lenda e referência para muitos.

Nesse percurso, o mestre afirma nunca ter recebido ajuda de terceiros com indicações ou apadrinhamentos, cresceu sozinho com o próprio mérito e esforço. No entanto, teve ao seu lado um grande amigo das rodas da vida, Paulo Sérgio da Silva, o Mestre Paulão Muzenza, a quem Mestre Zé Pedro dizia “não nascemos para ser soldados, temos que subir”.

A partir de sua prática em outras modalidades de luta, Mestre Zé Pedro lutou alguns vale tudo, tendo recebido inclusive a faixa preta de jiu-jitsu do lendário Mestre Hélio Gracie, que o considerava um “menino de ouro”. Segundo relato do próprio Mestre Zé Pedro, ele permaneceu invicto nos enfrentamentos: “nunca perdi uma luta de vale tudo”.

Seu contato direto com a capoeira ocorreu quando viu um grupo de capoeiristas praticarem na academia do Mestre Valdo Santana. Valdo era irmão do afamado lutador Waldemar Santana – baiano, lutador de boxe, luta livre, jiu-jitsu, e capoeira, que ajudou a difundir a luta e os esportes de combate pelo país, tendo feito a luta mais longa da história do vale tudo com seu antigo mestre Hélio Gracie.

Começou então a treinar sozinho os golpes e movimentos, ingressando tempos depois, na academia do baluarte, Mestre Mário Buscapé (Mario dos Santos), onde treinou por três anos e aprendeu com facilidade a arte capoeira, segundo o mestre, devido ao seu lastro esportivo.

Paulão e Zé Pedro. Fonte: Acervo M Paulão Muzenza.

Na academia do Mestre Mario Buscapé conheceu grandes mestres que frequentavam o espaço, como mestre Paulão Muzenza e Mestre Mintirinha, entre outros. Neste celeiro de bambas, Mestre Zé Pedro desenvolveu seu talento para com o berimbau – instrumento de que se orgulha ser exímio tocador – tornou-se um cantador e profundo conhecedor de chulas e cantigas de capoeira. Neste percurso, o mestre se desenvolveu, até se tornar um dos melhores capoeiras da “linha dura” do Rio de Janeiro.

“Quando nego queria tirar uma onda a gente dava uma quedinha”.

Em seguida, Mestre Zé Pedro abriu uma academia na Rua Cândido Benício, em Jacarepaguá, e tempos depois dividiu o espaço com o Mestre Mintirinha. O local foi o berço da sua primeira escola, o Grupo Pequenos Libertadores, contudo, este nome lhe trouxe alguns percalços, pois em plena ditadura, teve que se explicar ao Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).Sua história com o bairro de Bonsucesso surge por volta dos anos 1970, a partir do convite para ministrar aulas em uma academia na Rua Uranos, nº 497, sobreloja. Agora com o nome Grupo Filhos de Amaralina, seu trabalho voltou-se para o ensino da capoeira e a realização de rodas e exibições.

Mais tarde o Grupo Filhos de Amaralina passa a se chamar Guaiamus e Nagoas, em homenagem às duas maltas de capoeiras rivais existentes no Rio de Janeiro. Mestre Zé Pedro revela que nesse período tinha um bom acesso à capoeiragem carioca, frequentando rodas por toda cidade, também ganhou amigos, treinou alunos e realizou muitas rodas em sua academia.

“Ai fiquei com a academia, assumi tudo, as responsabilidades, e passei a fazer as grandes rodas.”

Assim nasceu a lendária Roda de Bonsucesso ou Roda do Mestre Zé Pedro. De acordo com o Mestre, a roda era frequentada por muitos capoeiras da época e só os bambas conseguiam realmente jogar. Perguntado sobre algum jogo ou momento especial da roda, o mestre respondeu: “As rodas meu camarada eram excelentes. E não dá para pra enumerar. Não, essa aqui foi a melhor”. No entanto, confirmou a presença de mestres de capoeira do naipe de Artur Emídio, Leopoldina, Mintirinha, Paulão, Camisa (Camisa Roxa), Camisinha (Camisa), Touro, Dentinho, Gato, Paulinho Godoi, Celso, Peixinho, Itamar, Anzol, Silas, Corvinho, Amarelinho, Garrinchinha, entre outros.

“A minha academia ficou conhecida porque tinha um contrato com a RioTour, então o nome da minha academia saía no calendário de turismo para o mundo inteiro”.

Com isso, a roda e a academia do mestre passou a ser uma referência, e os capoeiras de Brasília, São Paulo e Bahia a procuravam para jogar e às vezes servia de hospedagem e ponto de referência aos amigos.

Na roda realizada aos domingos e guiada tradicionalmente por um berimbau, , os estilos de jogos eram diversificados, mas o mestre sempre defendeu que “capoeira é capoeira, existem os mais flexíveis, maleáveis, mais rápidos, os pra pancada esses mais próximos do meu estilo de jogo, o jogo duro, o combate corpo a corpo.” Os frequentadores da roda de Bonsucesso jogavam com muita malícia e naturalmente a rivalidade surgia, tal como nos sempre lembrados jogos entre Mestre Paulão e Mestre Camisa. Porém, apesar dos jogos mais duros, o mestre lembra que ninguém se tornava inimigo, eram capoeiras de alma, e depois da roda sempre havia os momentos de confraternização.

Mestre Zé Pedro teve como alunos Paulinho Guaiamum, Alfredo, Célio, Élcio, Valmir, Murilo e Luiz Peito Queimado. Por volta de 1979 atendeu a uma “chamada da vida” e parou de ministrar aulas de capoeira para se dedicar aos estudos e seguir a carreira como sargento. Seu legado para a capoeiragem ficou marcado nos anais da história do Rio de Janeiro e sua contribuição para a capoeira permanece lembrada pelos mais antigos que se referem a sua roda como o local da capoeira pura, técnica, da destreza, agilidade, força e malandragem, símbolo de uma geração de mestres e praticantes da capoeira carioca.

Referências:

Baseada na entrevista com Mestre Zé Pedro realizada pelos autores e Mestre Paulão Muzenza em 17 de outubro de 2018.

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