Mestre Artur Emídio

Artur Emídio de Oliveira nasceu em 1930 e viveu toda sua juventude em Itabuna (Bahia), onde completou os estudos até o ginásio.

Geisimara Matos & Matthias Röhrig Assunção (junho de 2019)

Conforme seu depoimento, aprendeu capoeira “na rua, no rés do chão”, aos 7 anos de idade, com “Paizinho” (Teodoro Ramos), seu mestre. Com a morte de Paizinho em 1945, Emídio assumiu a academia, ainda aos 15 anos de idade. Apesar da pouca idade passou a ensinar aos alunos de Paizinho e logo começou a ganhar notoriedade, recebendo até alunos de Salvador.

Saiu de Itabuna no início da década 1950, quando tinha pouco mais de 20 anos de idade. Roberto Pereira (2018, p. 7-8) sugeriu que teria sido motivado pela leitura numa revista sobre lutas entre capoeira e jiu-jitsu. Artur primeiro foi para São Paulo onde desafiou lutadores de diversas modalidades. Na capital paulista Artur Emídio residiu por mais ou menos um ano. Depois dessa pequena temporada em São Paulo, se estabeleceu no Rio de Janeiro a partir de 1953 (Lacé, 2002, p. 226).

O início da trajetória de Artur Emídio em São Paulo e no Rio de Janeiro é marcado pelas lutas de ringue. Na primeira luta de que temos notícia no Rio, em 29 de junho de 1953, enfrentou Rudolf Hermanny, aluno de Sinhozinho, e perdeu por nocaute. Talvez por isso tenha visitado a academia dos Gracie, onde deve ter apreendido algumas noções de jiu-jitsu. 

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Artur Emídio bem jovem, em foto de viagem. Foto: Acervo André Lacé.

Acabou sendo praticante do que se chamava, na época, de luta livre. No entanto, fazia questão de afirmar a superioridade da capoeira sobre outras lutas. Uma das questões nessas lutas entre modalidades diferentes foi o uso do uniforme e outra foi a dos golpes permitidos. Artur Emídio recusava-se a usar quimono e exigia lutar de calção, calçado de tênis e empregar todos os golpes de capoeira.

Ele e Robson Gracie protagonizaram uma das lutas mais famosas no ringue. No fatídico dia 13 de abril de 1957, como relata o Diário Carioca, Emídio foi “derrubado logo no começo”, sofrendo “estrangulamento pelas costas”. A luta durou apenas quatro minutos. As derrotas levaram Emídio a procurar outros caminhos para a sua arte e sua carreira de capoeirista, no entanto, a experiência do ringue marcou o seu estilo – rápido e objetivo. Mestre Burguês, que conviveu com Artur Emídio na década de 70, caracteriza seu estilo assim: “Eu vi várias vezes ele dando aula. Ele tinha uma preocupação muito grande com a objetividade, a eficiência da capoeira. A capoeira é luta, mas o capoeirista sempre procurando descer, esquivar, não ter o confronto direto de o cara chutar e querer bloquear com o golpe.” As entradas e a velocidade passaram a caracterizar o estilo de Emídio, como lembra Mestre Silas: “O símbolo do Artur Emídio era o raio, porque ele era muito veloz”.

Começou a dar aula na academia de luta livre de Waldemar Santana, em Higienópolis. Essa academia era localizada em cima da farmácia Rio Novo, na Avenida dos Democráticos, 1313, lugar onde Artur também trabalhou como massagista. Algum tempo depois instalou sua própria academia na rua Manuel Fontenele, a rua detrás da farmácia. Nesse momento havia poucos lugares para se praticar capoeira no Rio de Janeiro e a “Academia de Capoeira Artur Emídio” foi uma das primeiras na cidade. A roda de domingo na academia de Artur teve um papel muito importante no desenvolvimento da capoeira contemporânea carioca, e mesmo brasileira, por ter sido um ponto de encontro importante entre capoeiristas de vários estilos. Conforme depoimento de Mestre Paulão: “Na roda do Mestre Artur Emídio vinham mestres de todo o Brasil, […] ali concentrava o subúrbio, a zona norte e a zona sul, era uma capoeira eclética.” A bateria da roda era formada por exímios tocadores de berimbau, como os mestres Paraná e Mucungê. A partir da década de 1960, Artur Emídio abandona o ringue e passa a se dedicar exclusivamente à capoeira, seja cuidando de sua academia, seja fazendo apresentações pela cidade, arbitrando em competições de capoeira (como o Berimbau de Ouro) ou se envolvendo na Federação Carioca de Pugilismo, que então começava a institucionalizar a capoeira, formalizando a prática e estabelecendo regras. Ele também trabalhava como massagista e, conforme depoimento de M. Gegê, Artur orgulhava-se muito de ter tratado Martha Rocha, após ser consagrada Miss Brasil, em 1954.

Artur Emídio destacou-se como um dos mestres que mais divulgava a capoeira em vários espaços e mídias, desde aulas a shows e programas de TV. Em entrevista concedida à Revista do Esporte, em 1959, ele já afirmava: “[se] as autoridades brasileiras me apoiarem, mostrarei que não existe esporte mais bonito ou exercício mais perfeito para o corpo humano do que a nossa capoeira”.

Com Djalma Bandeira (um de seus primeiros alunos), apresentava-se com um número de capoeira no espetáculo de variedades folclóricas “Skindô”. O empresário Abraão Medina os contratou para se apresentarem acompanhando o show do Nelson Gonçalves, em Nova York, Paris, Acapulco e Buenos Aires. É acertado dizer que Artur foi um dos pioneiros na internacionalização da capoeira.

Artur Emídio formou muitos mestres importantes como Djalma Bandeira, Paulo Gomes, Mendonça, Leopoldina e Roberval Serejo, transmitindo para a posteridade seu estilo e sua agilidade, características que marcaram a emergente capoeira contemporânea.

Artur Emídio de Oliveira, 1930-2011

Fontes:

Jornais da época consultados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional;

Entrevistas com M. Artur Emídio (2011), M. Burguês (2018), M. Paulão Muzenza (2016), M. Silas (2014).

Para saber mais:

Ferreira, Izabel, A capoeira no Rio de Janeiro, 1890-1950. Rio de Janeiro: Novas idéias, 2007.

Lacé, André. A capoeiragem no Rio de Janeiro. Editora Europa. Rio de Janeiro, 2002.

Pereira, Roberto Augusto A., O mestre Artur Emídio de Oliveira e a defesa da capoeiraem enquanto “Luta Nacional”. Recorde, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2, p. 1-24, jul./dez. 2018.

Pires, Antonio Liberac Cardoso Simões, Culturas Circulares. A formação histórica da Capoeira Contemporânea no Rio de Janeiro. Curitiba: Editora Progressiva, 2010.

Rio de Janeiro

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