Mestre Zuma

Anníbal Burlamaqui, agente aduaneiro e poeta; Zuma, capoeira e boxeador (1898-1965)

Por Ana Paula Höfling

No dia 18 de agosto de 1965 o Jornal do Brasil publicou uma nota na qual a Senhora Burlamaqui e sua família agradeciam as manifestações de pesar recebidas; Anníbal Z. M. Burlamaqui, autor do influente manual de capoeira de 1928 Gymnástica Nacional (capoeiragem) methodisada e regrada, havia morrido aos sessenta e sete anos. André Luis Lacé Lopes (2002, p.88) relata a data de nascimento de Burlamaqui como 25 de novembro 1898.

Burlamaqui, cujo folheto galvanizou os esforços para passar a capoeiragem das paginas policiais às páginas esportivas dos jornais cariocas—com o propósito de legitimar e reabilitar esse jogo de combate afro-brasileiro—fazia parte do número crescente de entusiastas da gymnástica nacional, uma prática rebatizada estrategicamente por ter sido proibida por lei como capoeiragem. Em meados da década de 1910, algumas reportagens de competições de capoeiragem começaram a aparecer nas páginas de esportes do Jornal do Brasil, mesmo que nesse momento as notícias sobre capoeiragem ainda aparecessem principalmente nas colunas de “queixas” e nas notícias policiais, onde era associado com esfaqueamentos e homicídios.  

Não sabemos com quem Burlamaqui aprendeu a capoeiragem e por quanto tempo; o que é certo é que na década de 1920 no Rio de Janeiro não faltavam oportunidades para estudar a ginástica nacional. Burlamaqui poderia ter estudado em espaços de aprendizado formais como o Ginástico Português, onde o professor de educação física Mario Aleixo ensinava a ginástica nacional desde 1920, ou pode ter se juntado aos homens que praticavam “exercícios de capoeiragem” em espaços públicos como as praças e os largos da cidade.

Jornais da época noticiavam a prática diária de capoeiragem em espaços públicos nos anos 1910 e 1920 no Rio de Janeiro, muitas vezes em colunas de queixas do público (tal como a coluna do Jornal do Brasil “Queixas do povo”). Da mesma forma, “exercícios de capoeiragem” aconteciam em várias praças da cidade, tais como a Praça Quinze de Novembro e a Praça Onze de Junho, como também em estações de trem, esquinas de bairros residenciais, a vários locais nos subúrbios (Engenho de Dentro, Cascadura, e Rocha).

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Capa de "Gymnástica Nacional (capoeiragem) methodisada e regrada", de 1928.

Com o apelido de Zuma ele participou de competições durante o final da década de 1910 e o início da década de 1920, fazendo uso de suas habilidades de capoeira e de boxeador. Em uma nota nas páginas esportivas do Correio da Manhã, de 20 de abril 1920, e uma nota em O Jornal, de 19 de abril de 1920, Zuma é referido como “capoeira e boxeur.” No seu livro (p. 15), Zuma explica que seu apelido é derivado do seu segundo nome de batismo; seu nome completo era Anníbal Zumalacaraguhy de Menck Burlamaqui.

Apesar de não sabermos muito sobre Zuma – o sportsman, o capoeira e o boxeador – além de seu influente livro de 1928, sabemos alguma coisa sobre a vida de Burlamaqui fora da capoeiragem: ele trabalhou como da guarda da polícia aduaneira, sendo referido como “guarda da polícia aduaneira” em um artigo de jornal onde os oficiais tentavam encontrar uma solução criativa para poderem revistar uma mulher suspeita de carregar contrabando debaixo de sua saia (“Um contrabando complicado e engraçado,” Correio da Manhã, 15 de junho1924). Ele foi promovido até chegar à posição de inspetor de impostos da Receita Federal. Zuma também foi um membro da sociedade literária Cenáculo Fluminense de História e Letras, baseada em Niterói, na qual ingressou no dia 8 de março 1930 ocupando a cadeira número 33 (“Posse do novo acadêmico,” Jornal do Brasil, 2 março 1930). Durante os anos 1950, fazia parte da diretoria do Cenáculo Fluminense, foi membro da Comissão de Redação e Parecer e foi eleito duas vezes presidente da sociedade.

O Cenáculo organizava leituras de poesia e recitais de música, e patrocinava publicações de livros escritos por seus membros, como o livro de poesia erótica de Burlamaqui intitulado O meu delírio: poêma do instinto (1939), que revela o autor como um homem apaixonado que ousava expressar seu libido e desejo na escrita. O livro recebeu uma resenha ambivalente no Jornal do Brasil (“Registro Literário,” Jornal do Brasil, 14 abril 1939) e uma resenha devastadora no Correio da Manhã (Álvaro Lins, “Critica Literária—Poesia,” Correio da Manhã, 16 de novembro, 1940). Ele também publicou um segundo livro de poesia, intitulado Babel de Emoções.

A vida de Burlamaqui foi guiada pela curiosidade. Sua capacidade de ver mais além das normas aceitas na sua época fizeram dele “um homem além do seu tempo”, ao mesmo tempo que tenha sido exatamente do seu tempo – um intelectual carioca e um sportsman profundamente imerso na modernidade brasileira.

Como Zuma, o esportista, e como Burlamaqui, o escritor, Anníbal parecia ser a pessoa perfeita para publicar um livro que apoiaria os esforços contínuos de reabilitar a capoeiragem, esforços liderados por vários outros entusiastas de capoeira brancos, instruídos e de classe média, como o jornalista e cartunista Raul Pederneiras.

Zuma com marca

Em um artigo de duas colunas para o Jornal do Brasil no mesmo ano em que o livro de Zuma foi publicado, Pederneiras, assinando apenas como Raul, lembra os malogrados esforços anteriores em organizar e criar um método para a ginástica brasileira, e louva a Gymnástica Nacional como uma metodização muito esperada de sua prática:

um trabalho de grande utilidade e que deve contribuir para a adopção do desporto nacional nos gymnasios, com todas as probabilidades de exito. A prova segura desse exito está na grande procura do livro do Zuma que assim veio trazer optima contribuição para que cultivemos e apreciemos, com resultado efficaz, o que é nosso, o que é bem brasileiro”. (Raul Pederneiras, “A Gymnastica Nacional,” Jornal do Brasil, 22 de abril 1928).

É claro que o objetivo principal da Gymnástica Nacional era de legitimar a prática e remover o estigma que pesava sobre a capoeiragem. Dr. Mario Santos, que escreveu o prefácio do livro e também posou como o oponente de Zuma nas vinte fotografias que ilustraram o livro, cita a legitimação do boxe inglês, da savate francesa e do jiu-jitsu japonês como precedente e pergunta:

“Porque […] a capoeiragem, no Brasil, haveria de escapar à marcha evolucional de suas congeneres? […] Porque não haveremos de regularizar e regenerar a capoeiragem?” (Burlamaqui, Gymnastica nacional, p. 4)

Zuma faz exatamente isso ao longo do livro. Inspirado por dois esportes populares importados, o boxe e o futebol, Zuma prescreve o diâmetro do campo circular do jogo, as posições iniciais dos jogadores, a duração de cada round (três minutos, com uma pausa de dois minutos), e critérios para estabelecer o vencedor em cada partida: um lutador ganharia por incapacitar o seu oponente, ou, se assim estipulado antes da partida, por pontos contados por um juiz que proclamaria vencedor o jogador que mais vezes derrubasse o seu adversário (Burlamaqui, p. 18-19). Com essas regras, Zuma esperava levar a capoeira para “a sociedade,” transformando-a numa “defesa própria, um sport como os demais” (Ibid, 15). Muitas regras propostas por Zuma – a presença de um juiz, um sistema de pontos, uma partida dividida em rounds cronometrados – obviamente representavam apropriações de esportes estrangeiros, Zuma rearticulou a capoeiragem de rua em termos hegemônicos através desses empréstimos estrangeiros. Enquanto muita atenção foi dada às suas regras para competições de capoeira –sua metodização– e a linguagem evolucionista de “melhorar” a capoeira que permeia o texto, as fotos demonstram amplamente que a prática de Zuma era fundada na capoeiragem de rua. Tanto as ricas descrições dos movimentos como as fotos que ilustram Gymnástica Nacional comprovam o conhecimento profundo que Zuma tinha da prática; é provável que ele tenha treinado pelo menos durante uma década antes de publicar o livro.

Zuma ensina o leitor a postura própria da guarda: “Leva-se á riba o corpo, num aprumo natural, em attitude nobre e erecta, oitava-se á direita ou á esquerda” (Ibid., 23). No entanto, em mais da metade das fotos do livro os jogadores aparecem agachados, com suas mãos apoiando seu peso, contradizendo essa postura em pé, “nobre” e ereta. Zuma e Santos demonstram uma técnica que exigia uma movimentação perto do chão, quer agachando debaixo de um golpe, quer iniciando um chute de baixo. A postura ereta da guarda, que Zuma ainda descreve como “a primeira posição, nobre e leal”, permanece quase exclusivamente retórica, invocando a nobreza como parte do seu esforço de remover o estigma que prejudicava a prática da capoeira no início do século vinte (Ibid).

Queixada, cabeçada e rabo de arraia nas ilustrações de Gymnástica Nacional:

A maior parte dos ataques e das defesas de Zuma são baseados em rasteiras e golpes de pé ao invés de socos e golpes com as mãos, precisamente porque as mãos são usadas para sustentar o peso do corpo. Apoiando as palmas das mãos no chão e liberando os pés para o ataque, a capoeiragem de Zuma exige que os jogadores constantemente desloquem o peso dos pés para as mãos e das mãos para os pés. A técnica de Zuma tem sido interpretada como uma versão ereta e rígida da capoeiragem, onde os movimentos não fluem. Porém, uma pessoa seguindo as descrições e instruções de Zuma, teria que constantemente levantar, cair, mergulhar, agachar, e pular.

O texto fornece ampla evidencia de interação constante, e de fato Zuma instrui seus leitores para iniciar um ataque a partir de um movimento de defesa, da mesma maneira que ataques e manobras evasivas fluem de um ao outro na capoeira de hoje em dia.  Um movimento que Zuma chama de “pentear” ou “peneirar” reforça a evidência da fluidez de seu jogo, mas também incorpora a “tapeação”, o elemento central da malícia na capoeira e capoeiragem. Zuma ensina: “Joga-se os braços e o corpo em todos os sentidos em ginga, de modo a perturbar a atenção do adversário e preparar melhor o golpe decisivo.” (Burlamaqui, p. 42).

Em contraste ao entendimento atual da ginga na prática da capoeira como um passo básico de conexão, o “peneirar” de Zuma tem a intenção explícita de confundir e enganar, uma manobra táctica para preparar um ataque. Enganação, malandragem e imprevisibilidade, as mesmas táticas consideradas fundamentos da capoeira hoje, permeiam a Gymnástica Nacional de Zuma.

As descrições de capoeiragem que precedem a publicação da Gymnástica Nacional revelam várias continuidades entre a ginástica nacional de Zuma e a capoeiragem oitocentista. Numa das descrições detalhadas mais antigas de capoeiragem, incluída nas Festas e tradições populares do Brasil, de 1893, do folclorista brasileiro Alexandre Mello Moraes Filho, encontramos descrições de vários movimentos quase idênticos aos incluídos na Gymnástica Nacional de Zuma. Mais da metade dos golpes mencionados por Mello Moraes também se encontram no livro de Zuma: o rabo de arraia, a cabeçada, a rasteira, o escorão e o tombo da ladeira (Mello Moraes Filho, p. 448).

Da mesma maneira, as descrições de Plácido de Abreu (1886), Raul Pederneiras (1921;1926) e Henrique Coelho Neto (1928) apontam para uma capoeiragem muito parecida à ginástica nacional de Zuma. Ele reivindica haver inventado três movimentos novos especificados no livro: a queixada, o passo da cegonha e a espada (Burlamaqui, p. 21). Ainda que Zuma, sem dúvida, tenha tentado “melhorar” a capoeiragem através da codificação, ele também advogou seu valor intrínseco: a capoeiragem “encerra, embora ainda um pouco confusa e mal definida, todos os elementos para uma cultura física perfeita” (Ibid, 13).

De fato, ele propunha que a capoeiragem fosse um instrumento de aperfeiçoamento pessoal para jovens “de família”; cultivando o corpo através da capoeiragem, o homem brasileiro se tornaria “forte, temido, corajoso e audacioso” (Ibid). Se todos os jovens aprendessem capoeiragem, assim Zuma prognosticava, os cidadãos brasileiros do futuro seriam “respeitados, temidos [e] fortes” (Ibid, 15). Ainda que propusesse “melhorar” a capoeiragem, Zuma imaginou um “cidadão do futuro” brasileiro, melhorado através de uma prática afro-diaspórica que já continha todos os elementos para uma cultura física perfeita. Cultivar ambos corpo e corpo político através de um jogo afro-diaspórico virava o pensamento eugenista de cabeça para baixo, permitindo que a africanidade fosse vista como uma fonte para a “regeneração”, ao invés de uma degeneração, uma fonte de força e de orgulho nacional.

Bibliografia citada:

Jornais do Rio de Janeiro consultados na Hemeroteca da Biblioteca Nacional:

Jornal do Brasil

Correio da Manhã

O Jornal

Abreu, Plácido de. Os capoeiras. Rio de Janeiro: Typ. da Escola de Serafim José Alves, 1886.

Burlamaqui, Anníbal. Gymnastica nacional (capoeiragem) methodisada e regrada. Rio de Janeiro: n.p., 1928.

__________. O meu delírio: poêma do instinto. N.p.: Cenáculo Fluminese de História e Letras, 1939.

Burlamaqui, Ulysses Petronio. Comunicação pessoal. Junho 19, 2020.
Coelho Netto, Henrique. “Nosso jogo.” In Bazar. Rio de Janeiro: Livraria Chardron, de Lello e Irmão, Ltda Editores, 1928.

Höfling, Ana Paula. Staging Brazil: choreographies of capoeira. Middletown, CT: Wesleyan University Press, 2019.

Lopes, André Luiz Lacé. A capoeiragem no Rio de Janeiro: primeiro ensaio, Sinhozinho e Rudolf Hermanny. Rio de Janeiro: Editora Europa, 2002.

Mello Moraes Filho, Alexandre José de. Festas e tradições populares do Brasil. Third edition. Rio de Janeiro: F. Briguiet, 1946 [1893].

Silva, Elton and Eduardo Corrêa, Muito antes do MMA: O legado dos precursores do Vale Tudo no Brasil e no mundo. Kindle edition, 2020.

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Para uma leitura detalhada da Gymnástica nacional de Zuma, veja o livro de Ana Paula Höfling, Staging Brazil: choreographies of capoeira. Middletown (2019). https://www.hfsbooks.com/books/staging-brazil-hofling/

Ana Paula Höfling é da Universidae da Carolina do Norte, Greensboro.

Rio de Janeiro

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