Capoeira, o diálogo transnacional de corpos em movimento

Capoeira, o diálogo transnacional de corpos em movimento

Por Daniel Granada

[ads-pullquote-left]”Once the African-Brazilian martial art called capoeira was distant. Now it’s right next door. North American women and men play this blend of dance and combat in Oakland, San Francisco, Los Angeles, Denver, Santa Fe, Boston, New Heaven, Washington D. C., Atlanta and New York City” (Thompson, 1992, xi).[/ads-pullquote-left]

Desta forma Robert Farris Thompson começa a apresentação de um dos primeiros livros dedicados à prática da capoeira publicados em inglês . O prefácio de Ring of Liberation, de J. L. Lewis, publicado em 1992, seria ao mesmo tempo prenúncio e reconhecimento da expansão da capoeira fora do Brasil. Um novo capítulo do desenvolvimento desta prática permeada por rupturas e continuidades, transpassada por processos criativos de reinvenções.

A relocalização da prática da capoeira, tanto no Brasil como fora dele, implica necessariamente uma ressemantização social e cultural da prática, tanto dos contextos nos quais se insere, quanto dos próprios agentes que operacionalizam estas trocas e traduções. Se no Brasil as transformações da prática já foram intensas, tendo sido impressas características regionais aos diferentes estilos de jogo, no caso da capoeira fora do Brasil surgem novas potencialidades, fruto da capacidade criativa dos agentes, das necessidades de inserção nos novos contextos e das possibilidades existentes fora do Brasil. Isto tem sido demonstrado de maneira marcante pelos diversos trabalhos que se dedicam a mapear a expansão da capoeira fora do Brasil e a problematizar os processos de adaptação da capoeira e seus praticantes nos novos contextos. Esses estudos colocam em evidência relações entre o campo “cultural” e o “político” dentro de diversos contextos nacionais, bem como as implicações identitárias e as relações de poder decorrentes do encontro entre praticantes brasileiros e praticantes locais nos Estados Unidos (Travassos, 2000), no Canadá (Joseph, 2008a, 2008b), na França (Vassalo, 2004; Ferreira, 2015 a; Gravina, 2010; Brito, 2017), na Espanha (Guizardi, 2011, 2013)

Estudos como o de Fernandes (2014), sobre a prática da capoeira na Alemanha, e o de Nascimento (2015), sobre a prática da capoeira na Polônia e em Portugal, trazem novos elementos para pensar a relocalização da capoeira na Europa. Em ambos os trabalhos ressalta-se o conhecimento da prática da capoeira por parte dos autores e a reflexão rigorosa sobre o material etnográfico que realizam. No caso de Fernandes (2014), as relações dos mestres entrevistados com o processo de emigração de brasileiros, na primeira onda de capoeiristas para o exterior, é evidente, demonstrando o importante papel dos grupos folclóricos na relocalização da prática fora do Brasil. Nascimento (2015:98-104) também assinala o papel de destaque dos grupos folclóricos no processo de expansão da capoeira fora do Brasil.

 A transnacionalização da prática da capoeira, tanto regional quanto angola ou outras modalidades, se associa intimamente ao movimento de aumento de contatos e circulação internacional de pessoas. Não apenas os brasileiros, mas indivíduos de diversas nacionalidades foram e continuam sendo responsáveis pela salvaguarda da memória, expansão e difusão da capoeira. Destaca-se o papel dos capoeiristas pioneiros que partiam na década de 1970 e 1980 em shows folclóricos pela Europa e Estados Unidos e decidiram permanecer vivendo de pequenos trabalhos, que descobriram na prática da capoeira um meio de permanecer em contato com o Brasil e viver dignamente como artistas no exterior, isto coloca em evidência as desigualdades existentes no plano internacional. Não por acaso, nas décadas de 1980 e 1990 o aeroporto começou a ser o destino de dezenas de capoeiristas que, através de redes de contatos, buscaram no exterior as condições de viver da prática da capoeira. Os anos passaram e esses capoeiristas criaram escolas, formaram instrutores, professores, trenéis, estagiários, contramestres, mestres, e tantas outras classificações que os capoeiristas criaram para diferenciar o tempo de prática e engajamento dos membros de seus grupos.

A estrutura atualmente estabelecida no exterior, fruto de um processo coletivo, onde atuam homens e mulheres, brasileiros ou não, repousa igualmente sobre a determinação individual, colocando em evidência um processo feito por pessoas, que se unem e formam grupos em torno de uma prática que carrega consigo uma memória gravada nos corpos, transmitida pela imitação de movimentos, cantos, ritmos e condutas. A contribuição da capoeira através do mundo, ainda lamentavelmente carente de reconhecimento em nosso país, se relaciona com aquilo que faz de nós humanos, a capacidade de criar, de inventar modos de vivermos juntos. A prática da capoeira é a arte de celebrar o encontro, de continuar a cada roda um jogo que nunca termina, que se reinventa a cada encontro pela alegria e banalidade de performar diálogos de corpos em movimento, de dançar, fazer música e viver em grupo.

No momento em que escrevo estas linhas, estamos passando por uma crise mundial ligada à pandemia de Covid 19, esta crise sanitária, também ela proporcionada pela intensificação da circulação de pessoas associada ao processo de globalização, tem como principal medida de controle de propagação o chamado isolamento social. Nos diferentes países que atravessam este momento de crise as rodas de capoeira foram canceladas, entretanto os berimbaus não silenciaram. Difundem-se no Youtube, Facebook, Instagram, etc lives e vídeos de capoeiristas tocando berimbau e cantando, outros movimentando seus corpos diante de seus smartfones, celebrando e fazendo viver a prática da capoeira. A apropriaçãodas novas tecnologias pelos capoeiristas e a sua utilização também não é algo novo, há alguns anos os capoeiristas se utilizam da internet e suas potencialidades para divulgar seus grupos e eventos. O que há de novo neste momento de crise é a impossibilidade do encontro nas rodas para vadiar com os camaradas. Dentro do processo de transnacionalização da prática da capoeira certamente este momento será lembrado como singular, mas futuramente dará motivo para novas rodas, novos abraços e apertos de mão ao som dos berimbaus, intensificando assim o diálogo transnacional de corpos em movimento.

Daniel Granada é professor do Departamento de Ciências Naturais e Sociais, Universidade Federal de Santa Catarina.

 Referências:

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