O livro Capoeira, Engolo e Urucungo. Jogos de combate e arcos musicais no Atlântico Negro é uma tentativa de situar o jogo da capoeira e o berimbau num contexto mais amplo – entre os arcos e jogos de combate do Atlântico Negro.
Por Matthias Röhrig Assunção.
Jogos de combate e arcos musicais no Atlântico Negro
A associação de jogos de combate com arcos musicais pode parecer curiosa ou mesmo arbitrária. Mas, para um capoeirista do século XXI, esse nexo é óbvio, pois o berimbau tornou-se símbolo da capoeira . Símbolo visual na iconografia da capoeira moderna e ícone auditivo, pois sua sonoridade comanda a roda. Junto com outros estudiosos, eu acredito que o berimbau não teria sobrevivido sem a capoeira e, possivelmente, a capoeira não teria sobrevivido sem o berimbau.
O encontro do jogo de pernadas e cabeçadas com o arco musical deu-se no Brasil, mas poderia ter-se dado em alguma ilha do Caribe ou mesmo no arquipélago das Mascarenhas, no Oceano Índico. Pois, para todos esses lugares, africanos escravizados levaram suas lutas e seus instrumentos e recriaram práticas culturais negras. Em muitos desses territórios colonizados por europeus para o cultivo de gêneros tropicais existem jogos de combate parecidos com a capoeira e arcos musicais parecidos com o berimbau. Dessa maneira, não faz muito sentido olhar apenas para as terras de Pindorama para examinar as controvertidas origens da famosa arte ou para entender a dinâmica de sua formação. Tanto a história da África, quanto a de sua diáspora, oferecem muitas chaves para pensar o jogo da capoeira e sua orquestra liderada pelo berimbau.
Por isso, apresento no livro Capoeira, Engolo e Urucungo minhas tentativas de situar o jogo da capoeira e o berimbau num contexto mais amplo – entre os arcos e jogos de combate do Atlântico Negro, focando especialmente sobre o Atlântico Sul.1
1 A expressão Black Atlantic tornou-se famosa por causa do livro de Paul Gilroy, The Black Atlantic, e continua delimitando um campo crescente de pesquisa e de conhecimento. O Atlântico Sul é uma expressão geopolítica que foi ressignificada pelo historiador Luiz Felipe de Alencastre em seu trabalho O trato dos viventes para enfatizar a unidade do espaço econômico criado pela colonização portuguesa em Angola e no Brasil. A expressão tem sido bastante usada desde então por historiadores que examinam as relações e os intercâmbios entre a África Centro-Ocidental e o continente sul-americano.
O que é capoeira?
Muitos mestres deram, e continuam nos dando definições, desde aquela famosa frase de Mestre Pastinha: “Capoeira é tudo que a boca come”. E todas as definições são absolutamente legítimas, pelo menos no âmbito de cada grupo ou de cada estilo. Mas será possível chegar a um consenso mais abrangente? Na verdade, capoeira é um conceito abstrato, que subsome situações muito diferentes de prática corporal, musical e espiritual, no tempo e no espaço. Capoeira seria então tudo o que essas práticas diversas têm em comum? Isso certamente não seria aceito por muitos praticantes, pois eliminaria o que é considerado indispensável por alguns grupos (por exemplo, a espiritualidade africana), que já foi dispensada por outros grupos, de maneira implícita ou mesmo explícita, como na capoeira gospel. Assim, o conceito de capoeira denomina hoje uma nebulosa de práticas no presente e no passado e, dependendo do foco, a definição vai ser diferente. Daí deriva, então, entre outras razões, a discordância sobre o significado tanto da palavra como da prática, ou seja, sobre qual seria a “essência” da capoeira.
Como muitas outras manifestações afro-brasileiras, a capoeira também é um grande palco para as disputas nas atuais guerras culturais. Conceitos muito usados no século XX, como sincretismo, cultura popular e cultura brasileira têm sido questionados faz tempo. Ultimamente novos enfoques, de gênero, de raça ou interseccionais, têm exigido com maior pujança uma redefinição de paradigmas.2
A expansão fenomenal da capoeira como prática globalizada tem sido acompanhada por um crescimento significativo da produção acadêmica sobre o assunto, principalmente nas áreas da sociologia, educação e educação física. No entanto, somente uma pequena parte dos estudiosos pesquisa a história da capoeira e práticas afins a partir de fontes primárias. Como historiador, acredito que a pesquisa histórica pode contribuir para vários debates, que geralmente são muito ideológicos e pouco baseados em argumentos ou pesquisas empíricas. Quer dizer, a questão das origens ou o significado de episódios e fases específicos da capoeira, acaba sendo interpretada segundo as “narrativas mestras” que se enfrentam há mais de um século
2 Para uma avaliação geral e pesquisas recentes nesse campo, ver a coletânea de Martha Abreu, Giovana Xavier, Lívia Monteiro e Eric Brasil, Cultura negra.
A estrutura do livro
Na primeira parte tento dar uma visão geral e panorâmica dos jogos de combate existentes no “Atlântico Negro” na época do tráfico transatlântico de escravizados, até o final do século XIX, baseado em fontes escritas e iconográficas, assim como na literatura especializada no assunto.
O primeiro capítulo examina essas práticas na África atlântica, ou seja, os territórios da África envolvidos no tráfico para as Américas, o que inclui parte da chamada “Contracosta” e a Ilha de Madagascar. A seguir, faço, no segundo capítulo, um resumo dessas práticas nas colônias escravistas das Américas, desde os Estados Unidos, as ilhas e o litoral do Caribe até as Ilhas do Índico, onde também houve plantations.
Uma ressalva importante: Não sigo a evolução desses jogos de combate do século XX até a atualidade, nem olho para o retorno de algumas práticas diaspóricas, como a capoeira, para a África nas últimas décadas. Essa nova fase da globalização de artes marciais é um outro tema, tão importante que não pode ser tratado superficialmente.3 Tampouco procuro relatar ou analisar sistematicamente as influências possíveis de artes marciais europeias ou asiáticas sobre algumas técnicas dos jogos de combate africanos ou diaspóricos, pois se tornaram mais relevantes apenas no final do século XIX ou ao longo do século XX.4
A parte dois é dedicada a dois estudos de caso, o engolo no sul de Angola e o jogo de pau no Vale do Paraíba fluminense. Aqui, em contraste com a primeira parte, me baseio na história oral, em entrevistas com praticantes, para construir uma narrativa que parte do presente, do século XXI, para alcançar o passado. Esse procedimento tem algumas vantagens. Nos dois casos é possível analisar a inserção desses dois jogos de combate em contextos sociais e culturais mais amplos, o que não é possível a partir das informações dispersas e fragmentadas das fontes coloniais. E, sobretudo, permitiu dialogar com os artistas marciais, fazendo perguntas e recebendo respostas onde as fontes escritas permanecem mudas. Acredito que esses dois caminhos de pesquisa nos trazem muitos elementos para entender melhor a história da capoeira.
A terceira parte examina as fontes históricas sobre os arcos musicais no Atlântico Sul antes dos registros sonoros, que iniciam na década de 1930. Obviamente, a partir do momento que surgem esses áudios, a metodologia de análise precisa mudar totalmente, justificando esse recorte.5 É muito comum, entre capoeiristas, chamar qualquer arco musical africano de berimbau. O contrário também é verdade: nossos interlocutores angolanos muitas vezes chamavam de mbulumbumba o berimbau que tocávamos para eles. Deriva daí a ideia de que o berimbau brasileiro seria nada mais que um instrumento africano no Brasil, o que, por sua vez, reforça a narrativa de que a capoeira veio, tal qual, da África. Nessa parte três, pelo contrário, quero mostrar que vários arcos musicais (entre muitos outros instrumentos) vieram da África e foram tocados no Brasil. Muitos desapareceram, outros sobreviveram e alguns evoluíram. Esse processo é complexo e, ao entendê-lo melhor, conseguiremos uma compreensão mais profunda não somente da história da capoeira, mas da formação da cultura popular de matriz africana no Brasil.
Desejo uma boa leitura. Comentários bem-vindos para assuncao arroba essex.ac.uk.
3 Ver, por exemplo, a coletânea de Juan Diego Díaz, org., Tabom Voices. A History of the Ghanaian Afro-Brazilian Community; e seu artigo “The Musical Experience of Diasporas: The Return of a Ghanaian Tabom Master Drummer to Bahia”; além do livro de Celina de Sá, Diaspora without Displacement. The coloniality & Promise of Capoeira in Senegal.
4 Para o impacto dessas lutas no Brasil, ver o trabalho pioneiro de Elton Silva e Eduardo Corrêa, Muito antes do MMA.
5 Para uma análise do berimbau e de outros arcos musicais de uma perspectiva histórica até o presente, ver a literatura citada na parte III.
Matthias Röhrig Assunção é professor titular emérito de História na Universidade de Essex e o coordenador do website CapoeiraHistory.com.
Referências
Celina de Sá. Diaspora without Displacement. The coloniality & Promise of Capoeira in Senegal (Durham: Duke University Press, 2025).
Elton Silva e Eduardo Corrêa. Muito antes do MMA. O legado dos precursores do Vale Tudo no Brasil e no mundo, 1845-1934, 3 vols. (2020), Kindle.
Juan Diego Díaz, org., Tabom Voices. A History of the Ghanaian Afro-Brazilian Community (Accra: Brazilian Embassy, 2016).
Juan Diego Díaz. “The Musical Experience of Diasporas: The Return of a Ghanaian Tabom Master Drummer to Bahia”. Latin American Music Review 41, 2 (2020), 131-166, https://doi.org/10.7560/LAMR41201 (acesso 23.10.2025).
Luiz Felipe de Alencastre. O trato dos viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul (São Paulo: Companhia das Letras, 2000).
Martha Abreu, Giovana Xavier, Lívia Monteiro e Eric Brasil, orgs. Cultura negra. Vol. I, festas, carnavais e patrimônios negros, vol. II, Trajetórias e lutas de intelectuais negros (Niterói: Eduff, 2018).
Paul Gilroy. The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness (Londres: Verso, 1993).

