Criando o DNA de uma arte marcial mexicana. Ancestralidade, etnia e mexicanidade no Xilam.
Por George Jennings
Visão geral
Xilam (de Dzilam, literalmente, “remover a pele” em maia) é uma arte marcial mexicana contemporânea desenvolvida por uma singular pioneira, Marisela Ugalde, que percebeu a necessidade de um sistema de luta e desenvolvimento humano para incutir orgulho em um país que historicamente discriminou seus povos originários. Este artigo é baseado em minha pesquisa (2011-2016) envolvendo o trabalho de campo etnográfico, a história de vida da fundadora, entrevistas aprofundadas, bem como a análise de documentários, entrevistas e mídia.
Este trabalho apresenta a composição técnica do xilam dentro do contexto histórico do México como uma nação moderna que passou por vários estágios de colonização e desenvolvimento ideológico pós-colonial em torno de sua identidade nacional, mais notavelmente o conceito de mestizaje (mistura étnica/racial). Ele aponta o xilam como um exemplo de arte marcial moderna, criada dentro e para os mexicanos modernos que desejam aprender mais sobre sua herança ancestral — tanto cultural quanto genética — e o que a Mexicanidad (mexicanidade) pode significar no século XXI.
México: uma nação nascida da queda de impérios
Os mapas acima mostram as diferentes configurações territoriais até a formação do moderno Estado-nação do México: Mexica-Tenocha, Vice-reino da Nova Espanha e Era das Intervenções.
Muitas culturas influenciaram a rica cultura corporal do México, o que se estende às suas diversas artes marciais e esportes de combate (MACS), como a famosa lucha libre com suas máscaras coloridas e personagens ricos, seu pedigree no boxe profissional, medalhas no taekwondo olímpico e, desde a década de 1990, a criação de várias novas artes marciais em diversos estados do México inspiradas no passado pré-hispânico imaginário: SUCEM (sigla para Sistema Mexicano de Combate Extremo Unificado, fundado em Veracruz), pak-at-tok (em Nayarit), tae lama (em Puebla) e xilam (na Cidade do México e no Estado do México).
A visão neo-azteca do xilam
Como indica a imagem, existe uma licença artística para recordar, imaginar e retratar nossos ancestrais guerreiros. Apesar de os astecas terem sido derrotados, pode-se considerá-los corajosos, lutando contra conquistadores de armaduras, com canhões, armas de fogo e navios (sem esquecer as doenças), com os quais os povos pré-hispânicos não estavam familiarizados.
O xilam é uma arte marcial contemporânea e filosófica que segue uma visão (neo)asteca para a nação: uma visão baseada na sabedoria e nas realizações pré-hispânicas, bem como nos jogos e tradições indígenas atuais. Ele também é inspirado por duas outras culturas guerreiras: os povos maia e zapoteca, embora grande parte da terminologia e da contagem nas aulas seja feita na língua nahuatl do centro do México, onde o xilam é amplamente praticado (Cidade do México e Estado do México).
Raridade no mundo das artes marciais dominado pelos homens, o xilam foi fundado e registrado (no início dos anos 1990), e ainda é liderado, por uma mulher, Marisela Ugalde, que treinou várias artes marciais asiáticas e do Pacífico (incluindo kempo, kung fu e lima-lama) desde a adolescência. Durante a época dos Jogos Olímpicos de Verão de 1968 no México se inspirou a praticar judô na YMCA. Como “mãe” do xilam, Ugalde continua a pesquisar a filosofia e a cultura pré-hispânicas antigas, após um período de tutela sob seu mentor, o renomado líder de dança conchero Andrés Segura Granados (Jennings, 2015).
Nas imagens, representações de formas e animais de importância simbólica no xilam.
O xilam se concentra principalmente no combate corpo-a-corpo e na busca por pertencimento (Scandurra & Nardini, 2019), embora também contenha algumas sequências e exercícios com armas, usando recriações modernas de armas específicas, como os porretes astecas de obsidiana. Este foco na rotina simbólica (por exemplo, movimentos de acordo com os pontos do calendário pré-hispânico) e no ritual (utilizando mantras orais para cada movimento das formas fundamentais) diferencia o xilam do desporto de combate mexicano SUCEM, que envolve combate de contato total com essas armas, e do pak-at-tok, que enfatiza a autodefesa para mulheres e meninas vulneráveis.
Cada arte marcial mexicana parece ter sido desenvolvida em relativo isolamento, com sua própria pedagogia, filosofia e visão únicas — muito semelhante às práticas meditativas relacionadas, que operam independentemente em partes específicas do país (Ibinarriaga Soltero, 2021). É interessante notar que, embora as artes tenham sido fundadas e estejam sediadas em diferentes estados do país, muitas delas têm origem em territórios que outrora fizeram parte do império asteca.
Sem se preocupar excessivamente com competições esportivas ou autodefesa, o xilam concentra-se no desenvolvimento holístico de seus praticantes, seguindo os pilares da filosofia asteca. O xilam apresenta uma ideologia guerreira, treinando virtudes específicas por meio de uma pedagogia passo a passo baseada em sete animais indígenas encontrados nesta região das Américas: cobra, águia, jaguatirica, veado, macaco, iguana e tatu (ver www.xilam.org).
Os cintos (de branco a preto) são concedidos aos alunos após avaliações positivas envolvendo a demonstração de formas e a análise de movimentos e aplicações. Esses cintos são ordenados como em muitas artes marciais asiáticas, e os uniformes são pretos – calças lisas e uma camiseta oficial do xilam. Cada animal tem sua postura característica, posição das mãos e técnicas defensivas que são estilizadas na forma dos animais. Por exemplo, a postura da cobra é baixa e ampla, com movimentos circulares dos pés. Os golpes de mãos incluem golpes na garganta usando as pontas dos dedos, como uma cobra atacando.
Armas pré-hispânicas remodeladas (e sem corte) são ensinadas apenas em níveis avançados (estágios do veado, da iguana e do tatu). As técnicas de olhar são alimentadas pela pesquisa contínua de Marisela Ugalde sobre os guerreiros mesoamericanos através de murais, cerâmicas e visitas a sítios arqueológicos, enquanto a filosofia é informada pela transmissão oral de Andrés Segura.
A grande variedade de técnicas é principalmente simbólica, com três níveis de treinamento incluindo uma forma quadridirecional, uma forma multidirecional e, em seguida, a aplicação para autodefesa. Atualmente, o xilam não apresenta competições, embora jogos lúdicos sejam usados para desenvolver diversas qualidades, como agilidade e controle corporal no nível do macaco. Os alunos ainda podem praticar as posturas e os jogos de cada animal antes de atingir o nível de competência para aprender as formas específicas em questão.
Os aspectos sagrados desses animais são representados por meio de movimentos e jogos característicos, projetados para treinar as qualidades de cada animal fantástico. Esses animais têm importância simbólica em culturas nativas, como na dança do veado do norte do México. Grande parte do xilam é de natureza ritualística, inspirando-se em ritos simbólicos que sobreviveram no México, como as danças conchero, com seus movimentos nas direções do calendário pré-hispânico, e o mundialmente famoso Día de los Muertos (Dia dos Mortos), com seus símbolos da dualidade da vida e da morte.
Um projeto de (re-)educação decolonial
Já argumentei anteriormente que as artes marciais são desenvolvidas por praticantes carismáticos e experientes em momentos de criatividade, após uma mistura comum de crises pessoais e sociais (Jennings, 2019), e que muitas vezes são concebidas não apenas para desafios muito precisos em combate (cortejo, luta corpo-a- corpo, armas, etc.), mas também para lidar com problemas mais amplos na sociedade, como a expressão cultural e a libertação pessoal (Jennings, 2023). Também defendo que o xilam é, em muitos aspectos, um projeto decolonial — ou seja, uma atividade projetada para desmantelar uma mentalidade colonizada estabelecida na educação e na formação das pessoas. Até recentemente, essa internalização de valores do colonizador contribuiu para percepções negativas sobre os povos indígenas que aparentemente não contribuiriam para o projeto de modernização do México, assim como a propensão pré-hispânica para o sacrifício humano a uma infinidade de deuses.
É verdade que meus informantes não usaram o termo “decolonial” durante meu trabalho de campo anterior (2011-2016), no entanto, desde o momento do projeto de pesquisa, a virada decolonial nas ciências sociais pode nos levar a olhar para o xilam sob essa ótica. Durante as aulas que assisti, foi defendida a leitura do texto antropológico pós-colonial “México profundo” (Bonfil Batalla, 1994), ao mesmo tempo em que se adotava um ponto de vista aparentemente decolonial sobre a epistemologia e a ciência colonialistas ocidentais em discussões pessoais e baseadas em entrevistas.
Em vez de ser um projeto puramente teórico e abstrato (como é comum nos campos decoloniais na academia), o xilam poderia ser descrito como um projeto corporal de (re)educação que despreza grande parte dos estudos ocidentais portadores de uma visão de mundo do Norte global, ocidental, branca e cristã. Ele deseja promover o orgulho da herança indígena mexicana em um país que ainda convive com formas colonialistas de racismo, onde os brancos costumam receber um tratamento melhor (Navarette, 2016).
A arte marcial ensina ao praticante sobre as visões de mundo astecas e as línguas nativas (aprendendo termos em nahuatl, maia e zapoteca) devido a sua inspiração nas culturas asteca (mexica), maia e zapoteca, que tinham suas próprias ordens e tradições guerreiras, como os “cavaleiros” Águia (cuahtli) e Jaguar (ocelotl) da nobreza do Império Asteca. Os instrutores de xilam ensinam aos alunos que as quatro divindades principais, Quetzalcoatl, Tezcatlipoca, Xipetote e Huitzilopochtli, não eram deuses propriamente ditos, mas conceitos de energia que ligavam quatro elementos e determinadas cores às quatro estações e períodos de nossas vidas. Alguns praticantes com quem estudei até adotaram pseudônimos nahuatl e imagens pré-hispânicas nas redes sociais, como também ocupam grande parte de seu tempo livre com leituras sobre o mundo mesoamericano, questionando a visão colonial (e colonialista persistente) sobre seus ancestrais.
Ancestralidade, DNA e Mexicanidade
A ancestralidade é um tema crucial no xilam e os alunos seniores dos níveis iguana e tatu são incentivados a pesquisar sua herança cultural para aprender sobre suas origens e potencial genético. Muitos mexicanos têm um nível substancial de DNA indígena mexicano, um grupo que historicamente tem sido discriminado. Com o crescimento da indústria de testes genéticos, os mexicanos descobriram que têm uma rica tapeçaria de origens humanas, muitas vezes envolvendo um equilíbrio entre ancestrais mexicanos nativos, europeus (predominantemente espanhóis) e africanos (devido à escravidão transatlântica na Nova Espanha).
Em razão da complexidade dos marcadores de DNA ao longo das linhas parentais masculinas e femininas e da variedade de projetos de pesquisa, os resultados médios variam (Bodner et al., 2021), mas um mexicano típico pode esperar ter algo como 50% de mistura indígena, 45% espanhola e 5% africana em seus resultados de DNA, com a maioria do DNA indígena proveniente da linha materna. As médias, é claro, variam de acordo com a história de cada região, com o sul do México sendo associado a uma ascendência mais indígena e o norte sendo mais relacionado à recente ocupação europeia.
Essa mistura é mais complexa do que a ideologia simplificada de uma mestiçagem pan-mexicana lançada pelo governo pós-revolucionário no início do século XX (Gall, 2021). É importante ressaltar que DNA e cultura são, obviamente, coisas distintas. No entanto, a maioria dos mexicanos é mestiça em termos genéticos e culturais, mas não se trata de uma divisão simples de 50:50 entre nativos mexicanos e espanhóis, como é frequentemente retratado em famosos murais patrocinados pelos líderes militares do país (ex-generais que se tornaram presidentes), durante as primeiras décadas após a Revolução.
A perspectiva do xilam sobre etnia é mais semelhante à controversa noção de raça cósmica do político e filósofo mexicano José Vasconcelos (1925): uma nova “raça” latino-americana nascida da mistura de civilizações mais antigas que se uniram. Algumas pessoas com altos níveis de DNA indígena não falam línguas nativas, e outros mexicanos, de aparência branca, tipicamente de classe média, podem não estar cientes — e talvez negar — sua potencial ascendência nativa. Outros mexicanos são descendentes de asiáticos (chineses e filipinos, em particular) e do Oriente Médio (frequentemente libaneses e sírios), entre outros grupos étnicos que migraram nas últimas gerações. No entanto, todos eles vivem em terras que antes eram ocupadas pelos povos originários — o grupo ao qual a Associação de Artes Marciais Xilam dedica seus esforços.
Embora o xilam seja uma arte moderna, com uma fundadora viva e algumas semelhanças técnicas controversas com os estilos do Leste Asiático (por exemplo, as posturas e o sistema de cintos coloridos), é certamente um sistema muito mexicano de combate e desenvolvimento humano: com uma fundadora mexicana, um local de fundação mexicano na Cidade do México e sede no vizinho estado do México, estímulo pré-hispânico, adoção de línguas indígenas (ou seja, nahuatl, maia e zapoteca) para contagem e nomes de animais, animais nativos e símbolos e inspiração de culturas passadas. Ele expressa uma forma de mexicanidade – o sentido quintessencial de mexicanidade que também pode ser visto em outras vertentes alternativas da vida cultural mexicana, como na graciosa Dança Regional Mexicana (dança folclórica), na cômica lucha libre e nas românticas telenovelas mexicanas.
Existem muitos Méxicos diferentes, dependendo da classe social, dos recursos econômicos, da ascendência e da mobilidade de cada um, mas no xilam se concentra a civilização antiga subestimada, subsumida no que Guillermo Bonfil Batalla (1994) chamou de México profundo: a Mesoamérica, em oposição ao Estado-nação oficial e sua visão mestiça da identidade nacional (Arredondo Ramírez, 2005).
George Jennings é professor adjunto (Senior Lecturer) de Sociologia do Esporte na Cardiff Metropolitan University, no País de Gales, Reino Unido. Ele pesquisa diversas artes marciais desde 2004, incluindo wing Chun, taijiquan, artes marciais históricas europeias (HEMA) e xilam. George é diretor fundador da Associação de Estudos de Artes Marciais (MASA) e coeditor do livro Martial Arts in Latin Societies (Routledge, 2025). Ele também faz parte do conselho editorial da Revista de Artes Marciais Asiáticas (RAMA). Morou no México de 2011 a 2016.
Referências
Arredondo Ramírez, M. L. Mexicanidad versus identidad nacional. Cidade do México: Plaza y Valdes, 2005.
Bodner, M., Perego, U. A., Gómez, G. E., Cerda-Flores, R. M., Rambalde Migiliore, N., Woodward, S. R., Parson, W. & Achilli, A. “The mitochondrial DNA landscape of modern Mexico”. Genes, 12, n. 9 (2021): 1453.
Bonfil Batalla, G. México profundo: Una civilización negada. Cidade do México: Debolsillo, 1994.
Gall, O. “Mestizaje y racismo en México”. Nueva Sociedad, n. 292 (2021): 53-64.
Ibinarriaga Soltero, B. “‘Before mindfulness’: Decolonising meditative practices in Mexico”. Unpublished doctoral thesis, Cardiff University, 2021.
Jennings, G. “Mexican female warrior: The case of Marisela Ugalde, the founder of Xilam”. In A. Global perspectives on women in combat sports: Women warriors around the world, edited by Channon and C. Matthews, 119-134. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2015.
Jennings, G. “Bruce Lee and the invention of Jeet Kune Do: The Theory of Martial Creation”. Martial Arts Studies, n. 8 (2019): 60-72.
Jennings, G. Reinventing martial arts in the 21st century: Eastern stimulus, Western response. Oxford: Peter Lang, 2023.
Navarette, F. México racista: Una denuncia. Cidade do México: Grijalbo, 2016.
Scandurra, G. e D. Nardini. “Hand-to-hand sports and the struggle for belonging”. Ethnography 22, n. 3 (2019): 289-294.
Vasconcelos, J. The cosmic race / La raza cósmica. Baltimore: John Hopkins University Press, 1925.
Xilam Martial Arts Association official website. Available at: www.xilam.org.
As imagens foram cedidas pelo autor.










