Uma imagem anônima da região do antigo reino de Loango, supostamente de 1826, mostra africanos vindos do interior do Congo, antes do embarque para a América.
Por Carlos Eugênio Líbano Soares.
Em 2008 eu estava em Paris pesquisando escravidão africana no século XVIII e levantei centenas de imagens na Biblioteca Nacional da França François Miterrand. Encontrei essa imagem (anônima) da região do antigo reino de Loango, supostamente de 1826, que me intrigou bastante.
Nela, vemos os barracões onde os africanos trazidos nas chamadas rotas Vili ─ vindos do interior do Congo, desembocando na foz do Rio Zaire, ao sul do reino de Loango ─ eram concentrados, antes do embarque para a América (Caribe). No primeiro plano, temos o círculo, onde africanos escravos que já estavam fazia algum tempo nos barracões se reuniam como de costume. Esses africanos eram de etnias diversas, da região denominada Congo Norte por Mary Karasch, e mapeada no livro de Westerman, de 1948.1 Vemos também atravessando o terreno, no segundo plano, aqueles recém-chegados com a “cangalha” (palavra quimbundo para corrente).
1 Karasch, Slave Life; Westermann, The missionary.
2 Mintz, e Price, O nascimento da cultura.
3 Slenes, “Malungo n’goma”.
Na cena retratada, os personagens estão reunidos no círculo, ou naquilo que o antropólogo Wyatt MacGaffey chamou de “círculo anti-horário”, outro elemento comum dos povos de línguas banto4 . Existe uma homogeneidade neste grupo da roda, estrito senso, e nenhum traço distintivo de diferença étnica. Mas dentro do círculo uma dupla se destaca.
Vemos dois indivíduos disputando a liderança. Um deles em posição defensiva, à esquerda, aparenta esperar o golpe. O lutador da direita maneja o que parece ser um bastão e se prepara para fustigar seu adversário. Certamente a disputa, mesmo que seja simulada, representa uma luta por prestígio dentro de um grupo que possivelmente vai continuar unido, pelo menos dentro do próximo navio negreiro.
De acordo com o livro de Janguinda Kambuwetete Kabwenha os africanos de Angola preservaram diversas lutas de origem imemorial, que certamente se encontravam no outro lado do Atlântico5 . Mas nos interessa o lado africano do Atlântico agora.
Na cena do quadro, os dois indivíduos disputam a liderança através da arte marcial improvisada, que pode ser a mistura de diferentes práticas, mas que se assemelha à kambangula, praticada hoje no centro e sudoeste de Angola, como aparece no mapa do mesmo Kabwenha6 . Da mesma forma, a disputa pela liderança é um fator estrutural da capoeira, no passado e no presente.
Africanos da atual Angola podiam ser traficados nas rotas Vili, mas o que interessa na gravura é que a postura dos representados mostra a formação de uma comunidade, a comunidade do negreiro, fadada a ser desfeita na chegada à América, mas que terá impacto na vida dos africanos na “terra de branco”, como eles falavam na Bahia, de acordo com João José Reis7 . Um vestígio da subsistência desses laços é o termo Malungo, isto é, companheiro de navio negreiro, que se tornou um componente importante do léxico africano na América, no âmbito das relações pessoais, durante e após a escravidão.
4 MacGaffey, Religion and Society.
5 Kabwenha, Artes marciais de Angola.
6 Kabwenha, Artes marciais de Angola, 137.
7 Reis e Silva, Negociação e conflito.
No início do século XIX, duas cenas de comércio de escravizados, atividade concentrada no Cais Valongo (zona portuária do Rio de Janeiro), foram registradas por Rugendas e Debret.


Nos relatos de viajantes, o Cais do Valongo, na freguesia de Santa Rita, no Rio de Janeiro, o maior entreposto escravista das Américas, que recebeu cerca de um milhão de africanos entre 1774 e 1831, vemos a menção da “canção do Valongo”.8 Os africanos, de noite, encerrados nas casas de “engorda” e venda de escravizados, na atual rua Camerino, se juntavam em círculos e batiam palmas entoando uma gutural e melancólica cantiga, cuja letra não foi registrada. Eles formavam círculos batendo palmas e, às vezes, um dos africanos entrava na roda, e dançava freneticamente.
Freireyss encontrou pessoalmente centenas de escravos nus, de ambos os sexos e todas as idades, que dançavam em um grande círculo, enquanto batiam palmas e gritavam uma canção de apenas três notas. Um dançarino deixava o círculo e ia para o centro, “movendo o corpo em todas as direções” e, quando terminava, outro tomava seu lugar. Às vezes essas danças duravam horas, para desgosto dos vizinhos.9
A capoeira, como quase tudo na cultura africana da diáspora, de acordo com nossa hipótese, surgiu da combinação de diversas danças cerimoniais e artes marciais existentes na ampla área de captura de escravos. Entendemos que a combinação dessas práticas deu origem a algo novo, mas multifacetado, como ocorreu com a capoeira, no Brasil, e também com a ladjya, na Martinica.
A imagem mostra aquilo que Bob Slenes retrata em seu texto antológico citado como a formação da cultura afro-americana tendo início na captura dos indivíduos no coração da África e no ajuntamento dessas pessoas, de culturas e etnias diferentes, mas unidas pela língua.10 O quadro retrata uma situação rara e mostra a cultura da escravidão nascente entre aqueles arrancados de seus lares pela violência, ainda em solo africano.
Esta gravura congela um momento crucial da formação da cultura escrava nas Américas: quando a comunidade do navio negreiro “substitui” a etnia, o que, lógico, relativizamos. A gravura é do século XIX, momento em que grande parte do tráfico era clandestino e os navios franceses podiam abastecer o tráfico ilegal.
Novas pesquisas devem ser feitas para melhor enquadrar essa importante documentação iconográfica.
8 Karasch, Slave Life, 80-81.
9 Karasck, Slave life, 81.
10 As línguas dos africanos da região do Kongo eram aparentadas, tendo em comum o tronco linguístico bantu. Essa união linguística não ocorria no caso da África ocidental.
Carlos Eugênio Líbano Soares é doutor em História Social do Trabalho pela Unicamp e pós-doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal da Bahia e professor associado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Pesquisa a História da escravidão africana, com ênfase em História da escravidão urbana no Rio de Janeiro e Salvador.
Referências
Kabwenha, Janguinda Kambwetete. Artes marciais de Angola: akwa mawta – clássico de honra. S.l: Yakalakaya, 2024.
Karasch, Mary C. Slave Life in Rio de Janeiro, 1808-1850. Princeton: Princeton University Press, 1987.
MacGaffey, Wyatt. Religion and Society in Central Africa: the Bakongo of Lower Zaire. Chicago: University Chicago Press, 1970.
Mintz, Sidney W. e Richard Price. O nascimento da cultura afro-americana: uma perspectiva antropológica. Rio de Janeiro: Pallas e Universidade Cândido Mendes, 2003.
Reis, João José, e Eduardo Silva. Negociação e conflito. A resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
Slenes, Robert W. “Malungo n’goma vem: África encoberta e descoberta no Brasil”. In: Mostra do Redescobrimento: Negro de Corpo e Alma – Black in Body and Soul. (Catálogo da exposição realizada de 23 de abril a 7 de setembro de 2000 no Parque Ibirapuera, São Paulo). Nelson Aguilar, org. São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo/Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais, 2000, 212-220.
Westermann, Diedrich H. The missionary and anthropological research. Oxford University Press for the International African Institute, 1948.
O mapa de Miller foi publicado em “África central durante a era do comércio de escravos de 1490 a 1850”. In Diáspora negra no Brasil, Heywood, organizado por Linda M. São Paulo: Contexto, 2008.
A imagem de Debret faz parte do acervo da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro).
A imagem de Rugendas foi publicada em Voyage Pittoresque et historique au Brésil depuis 1816 jusquen 1821.

