O uso militar da capoeira: mitos e realidades em torno da Guerra do Paraguai (1864–70).
Por Carlos Caso Bustillo
Esse post resumo um artigo do autor publicado originalmente na Revista de Artes Marciales Asiáticas, Vol. 20(2), 2025.
1. Introdução
Quem estava ali? Os Voluntários da Pátria e os zuavos baianos se nutriram de setores populares e afrodescendentes: presos, escravos manumitidos, gente da rua. Não porque o Exército buscasse “artistas marciais”, mas porque assim funcionou o recrutamento. Isso não implica uma alta probabilidade estatística de encontrar capoeiras na linha de frente, com hábitos de violência urbana (navalha, cabeçada, chutes) bem documentados na imprensa do século XIX?
Houve nomes próprios? O sargento Marcolino José Díaz surge como ágil e decisivo em Curuzú; o marinheiro Marcílio Dias combate até a morte em Riachuelo. Usaram “capoeira” em sentido estrito? Não podemos afirmar, mas o perfil corporal, a dinâmica do choque e a luta a sabre ou baioneta encaixam com destrezas capoeirísticas. E a cultura da época já o imaginava: relatos satíricos mencionam cabeçadas em plena abordagem, canções aludem à guerra. Isso não é uma memória subalterna que conecta a capoeiragem ao combate próximo?
E a eficácia técnica? Quando comparamos a bênção com chutes frontais codificados (karatê, taekwondo, muay thai), os tempos e ângulos são análogos; as forças estimadas em front kicks de combate situam a bênção num intervalo plausível de impacto. Isso não sugere que, sem ser doutrina oficial, poderia funcionar onde a batalha se tornava curta, móvel e surpreendente?
2. Objetivos e metodologia
O objetivo principal do artigo é duplo: determinar se a capoeira pôde ser utilizada na Guerra do Paraguai e avaliar a possibilidade de suas técnicas serem eficazes em um contexto bélico do século XIX. Para isso, o autor adota uma metodologia interdisciplinar. Por um lado, realiza uma análise qualitativa de fontes históricas, hemerográficas e testemunhais, incluindo memórias, crônicas, canções e imprensa da época. Por outro, incorpora um componente comparativo que examina a biomecânica de movimentos da capoeira frente a técnicas de outras artes marciais e sistemas militares.
A seleção de fontes é ampla e diversa: estudos clássicos e contemporâneos, documentos oficiais, artigos acadêmicos e trinta referências hemerográficas que oferecem indícios sobre recrutamento, combates e representações culturais. Essa combinação permite ao leitor compreender não apenas o contexto militar, mas também a dimensão social e simbólica da capoeira no Brasil oitocentista. O artigo antecipa que a evidência direta é escassa, mas sugere que a acumulação de indícios pode oferecer uma imagem verossímil, ainda que não conclusiva.
3. Desenvolvimento temático e casos-chave
O primeiro bloco do artigo analisa a narrativa histórica que vincula capoeira e guerra. Começa com Manuel Querino, que mencionou nomes de soldados que teriam praticado capoeira e participado de batalhas. A partir daí, rastreia como outros autores reproduziram ou reinterpretaram essa versão, e como canções tradicionais e relatos orais reforçaram a ideia de uma presença ativa de capoeiras no conflito. O texto também examina a hipótese do recrutamento forçado de praticantes, apoiada na diminuição das detenções por capoeira durante os anos mais intensos da guerra.
O estudo situa essas discussões no contexto tático da contenda: uma guerra prolongada, marcada por carências logísticas e enfrentamentos corpo a corpo após o esgotamento das munições. Nesse quadro, o artigo apresenta casos emblemáticos que alimentaram o imaginário nacional, como os zuavos baianos —unidades integradas por homens negros e setores populares— e figuras como Marcolino José Dias e Marcilio Dias, associados pela tradição à capoeira. Sem revelar todos os detalhes, o texto deixa entrever episódios como a tomada do forte de Curuzu e a batalha naval de Riachuelo, onde a proximidade extrema pode ter aberto espaço para o uso de habilidades marciais.
4. Implicações e encerramento
O segundo bloco aborda a questão técnica: as técnicas da capoeira oitocentista poderiam funcionar em combate real? O artigo descreve movimentos característicos como a cabeçada e a patada bênção, e explora seu potencial mediante comparações com artes marciais codificadas. Sem transformar o texto em um manual, o autor mostra que certos parâmetros —tempo de execução, ângulo e força— são comparáveis aos de disciplinas como taekwondo ou karatê, o que sugere uma eficácia plausível em cenários de choque próximo. Essa abordagem acrescenta uma dimensão inovadora ao debate, combinando história e ciência do movimento.
As conclusões não encerram o tema, mas o ampliam. O artigo confirma a presença provável de capoeiras no front e a verossimilhança de que aplicaram suas habilidades em situações-limite, embora descarte a existência de uma instrução tática oficial. Mais além da evidência bélica, o texto revela como essa narrativa serviu para ressignificar a capoeira: de prática marginal e criminalizada a símbolo de resistência afro-brasileira e heroísmo nacional. Com isso, convida o leitor a refletir sobre a relação entre mito, memória e construção identitária. Foi a capoeira uma arma na guerra ou um recurso para a história? O artigo não oferece respostas simples, mas sim um percurso documentado que merece ser lido.
Carlos Javier Caso Bustillo (Espanha) é Licenciado em História e Antropologia, além de Mestre em História Militar. Pesquisa as seguintes áreas: Novas metodologias para a História na era digital, História Pública, Redes sociais como espaços para o debate científico e História Militar. É autor do artigo “Una propuesta metodológica para el uso académico de Twitter em el contexto de la historia publica”. Atualmente, trabalha no tema Marinha Espanhola no século XVIII.
Referências
Querino, M. A Bahia de outrora (vultos e factos populares). Livraria Progresso, 1955. https://archive.org/details/querino-bahia-de-outrora-ocr.
Rego, W. Capoeira Angola: Ensaio sócio-etnográfico. Editorial Itapuá, 1968. https://www.capoeirashop.fr/img/cms/Waldeloir%20Rego%20Capoeira%20Angola+capa.pdf
A pesquisa de imagens é do autor.





