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12th dezembro 2025 3
Geral

Capoeira na Jamaica

Capoeira na Jamaica
12th dezembro 2025 3
Geral

Capoeira na Jamaica: “Banana Way Style – um filme sobre a circulação da cultura”.

Por Roberto Pereira

Capoeira pra estrangeiro, meu irmão, é mato! Capoeira brasileira, meu compadre, é de matar!”

Há pelo menos duas décadas, o dito dessa velha canção muito popular nos anos 1980 e 1990, não corresponde mais à realidade no que se refere à capoeira fora do Brasil. Por volta do início do século XXI, os capoeiras já começavam a estar muito presentes na Europa e nos Estados Unidos. Dentre os pioneiros a divulgar e difundir a arte negra brasileira estiveram grandes mestres como o baiano Artur Emídio, ainda nos anos 1950, e Nestor Capoeira (que nos deixou recentemente), em meados dos anos 1970.

Capoeira pelo mundo

Desde os pioneiros, o trajeto dos capoeiras esteve voltado para as regiões economicamente mais desenvolvidas do mundo, onde o dinheiro vale mais e onde, por este motivo, havia a possibilidade de uma vida melhor para os capoeiras. A busca por melhores condições de vida foi, inquestionavelmente, o motivo fundamental para a chegada, radicação e difusão da capoeira pelo mundo. Diante da falta de incentivo governamental e empresarial no Brasil, onde grandes nomes, como os mestres Pastinha e Bimba, para citar os casos mais emblemáticos, amargaram extremas dificuldades em seus últimos anos de vida, o caminho foi buscar outras paragens.

Nesse processo de internacionalização da capoeira por conta própria, outras regiões do mundo ficaram, digamos, a ver navios. Quem se interessaria ou se aventuraria a sair do Brasil para ensinar capoeira em um país pobre em que todo o esforço não traria o mínimo de retorno financeiro? Sair de seu país para passar dificuldade alhures não parecia ter muito sentido, melhor seria ficar em casa.

Devido a isso, áreas menos atrativas financeiramente do mundo, como países pobres da América Latina, América Central e do continente africano ficaram de escanteio por certo tempo e apenas mais recentemente começaram a se integrar ao processo de internacionalização da capoeira por vias diversas.

Capoeira na Jamaica

Esse, foi, por exemplo, o caso da Jamaica, onde a arte marcial brasileira foi introduzida no início do século XXI, não por um brasileiro em busca de melhores condições de vida, mas por um jovem capoeira alemão, Dennis Eckart, o contramestre Simpson, à época apenas um instrutor do grupo Cativeiro. Um pouco da trajetória curiosa desse capoeira foi discutida em um artigo publicado pela Revista Afro-Ásia (UFBA, 2024) e recentemente virou um curta-metragem gravado na Jamaica com depoimentos dele e de seus discípulos.

Capoeira na Jamaica
Capoeira na Jamaica

O contramestre Simpson com alguns dos alunos mais antigos do grupo Cativeiro da Jamaica: Tarik (pandeiro); Simpson (berimbau), Rodane e Kara (à frente).

A família Eckart: Dennis e sua companheira Collen, com os filhos Emma, Lukka e Lilli.

O filme é uma produção independente, gravada entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020 na Jamaica e finalizada em 2024. Nesse mesmo ano, foi lançado em Kingston, na sede do Ministério de Gênero, Entretenimento e Esporte da Jamaica, com apoio deste Ministério, do contramestre Simpson, do grupo Cativeiro da Jamaica e de Steven Golding, presidente da Universal Negro Improvement Association and African Communities League (UNIA).

Aula do contramestre Simpson em uma escola no quilombo Charles Town, Jamaica.

Aulas em Fletchers Land com foco em educação para a não violência.

Alunos de uma escola em Negril assistem a uma apresentação do grupo Cativeiro. No jogo, Carrapeta, B1, Capacete, Fofinho e Simpson.

Após lançamentos do filme no Brasil e na Jamaica, exibições em espaços acadêmicos e de capoeira, assim como a participação em alguns festivais, disponibilizamos ao público esse pequeno trabalho sobre o processo de internacionalização da capoeira, assim como o artigo antes referido em português e em inglês.

Aproveite e assista ao vídeo:

 Assista agora! Banana Way Style, o documentário de Roberto Pereira sobre a chegada da capoeira à Jamaica.

Aqui você acessa na íntegra o artigo da revista Afro-Ásia!

Leia o artigo Agenciamento negro e a transnacionalização da capoeira. O caso da Jamaica, de Roberto Pereira, a respeito de sua pesquisa  sobre o processo de expansão da capoeira na Jamaica

Capoeira na Jamaica
Link para a revista (artigo em português)
Link para o arquivo

(versão do artigo em inglês)

Roberto Pereira é documentarista, capoeira e Doutor em História Comparada pela UFRJ. Dirigiu e roteirizou O Dono da Capoeira (2014); Do Ringue aos Palcos e O Jogo da Navalha (2023). Fez estágio doutoral no Departamento de História da Universidade de Harvard, de 2009.

É autor dos livros: A capoeira do Maranhão: entre as décadas de 1870 e 1930 (São Luís: IPHAN-MA, 2019) e Rodas Negras: capoeira, samba, teatro e identidade nacional (1930 – 1960); prefácio, Flávio Gomes, (São Paulo, Perspectiva, 2023).

Roberto Pereira

Referências

Roberto Pereira, “Agenciamento negro e a transnacionalização da capoeira. O caso da Jamaica”, Afro-Ásia, n. 69 (2024), DOI: 10.9771/aa.v0i69.55777, disponível em https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/55777/34438, acesso em 17/11/2025.

As imagens são do acervo do contramestre Simpson.

Artigo anteriorO jogo de maniPróximo artigo Xilam: arte marcial mexicana

3 comments

Mestre Celso Pepe. disse:
16th dezembro 2025 às 1:07 pm

parabéns Matthias Assunção, esse é o verdadeiro trabalho de um historiador, divulgar assuntos novos e relevantes que são desconhecidos do mundo da capoeira, onde muitos mestres estão ocultados propositalmente pela soberba e hipocrisia de falsos reis da capoeira e mercenários donos de grupos que franquia suas marcas.

Reply
assuncao disse:
22nd dezembro 2025 às 4:38 pm

Obrigado, Mestre Celso, pelo seu apoio!

Reply
Silvia disse:
14th dezembro 2025 às 8:53 pm

muito obrigada pelo excelente nivel de informações!

Reply

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