Capoeira na Jamaica: “Banana Way Style – um filme sobre a circulação da cultura”.
Por Roberto Pereira
Capoeira pra estrangeiro, meu irmão, é mato! Capoeira brasileira, meu compadre, é de matar!”
Há pelo menos duas décadas, o dito dessa velha canção muito popular nos anos 1980 e 1990, não corresponde mais à realidade no que se refere à capoeira fora do Brasil. Por volta do início do século XXI, os capoeiras já começavam a estar muito presentes na Europa e nos Estados Unidos. Dentre os pioneiros a divulgar e difundir a arte negra brasileira estiveram grandes mestres como o baiano Artur Emídio, ainda nos anos 1950, e Nestor Capoeira (que nos deixou recentemente), em meados dos anos 1970.
Capoeira pelo mundo
Desde os pioneiros, o trajeto dos capoeiras esteve voltado para as regiões economicamente mais desenvolvidas do mundo, onde o dinheiro vale mais e onde, por este motivo, havia a possibilidade de uma vida melhor para os capoeiras. A busca por melhores condições de vida foi, inquestionavelmente, o motivo fundamental para a chegada, radicação e difusão da capoeira pelo mundo. Diante da falta de incentivo governamental e empresarial no Brasil, onde grandes nomes, como os mestres Pastinha e Bimba, para citar os casos mais emblemáticos, amargaram extremas dificuldades em seus últimos anos de vida, o caminho foi buscar outras paragens.
Nesse processo de internacionalização da capoeira por conta própria, outras regiões do mundo ficaram, digamos, a ver navios. Quem se interessaria ou se aventuraria a sair do Brasil para ensinar capoeira em um país pobre em que todo o esforço não traria o mínimo de retorno financeiro? Sair de seu país para passar dificuldade alhures não parecia ter muito sentido, melhor seria ficar em casa.
Devido a isso, áreas menos atrativas financeiramente do mundo, como países pobres da América Latina, América Central e do continente africano ficaram de escanteio por certo tempo e apenas mais recentemente começaram a se integrar ao processo de internacionalização da capoeira por vias diversas.
Capoeira na Jamaica
Esse, foi, por exemplo, o caso da Jamaica, onde a arte marcial brasileira foi introduzida no início do século XXI, não por um brasileiro em busca de melhores condições de vida, mas por um jovem capoeira alemão, Dennis Eckart, o contramestre Simpson, à época apenas um instrutor do grupo Cativeiro. Um pouco da trajetória curiosa desse capoeira foi discutida em um artigo publicado pela Revista Afro-Ásia (UFBA, 2024) e recentemente virou um curta-metragem gravado na Jamaica com depoimentos dele e de seus discípulos.
O filme é uma produção independente, gravada entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020 na Jamaica e finalizada em 2024. Nesse mesmo ano, foi lançado em Kingston, na sede do Ministério de Gênero, Entretenimento e Esporte da Jamaica, com apoio deste Ministério, do contramestre Simpson, do grupo Cativeiro da Jamaica e de Steven Golding, presidente da Universal Negro Improvement Association and African Communities League (UNIA).
Após lançamentos do filme no Brasil e na Jamaica, exibições em espaços acadêmicos e de capoeira, assim como a participação em alguns festivais, disponibilizamos ao público esse pequeno trabalho sobre o processo de internacionalização da capoeira, assim como o artigo antes referido em português e em inglês.
Aproveite e assista ao vídeo:
Assista agora! Banana Way Style, o documentário de Roberto Pereira sobre a chegada da capoeira à Jamaica.
Aqui você acessa na íntegra o artigo da revista Afro-Ásia!
Leia o artigo Agenciamento negro e a transnacionalização da capoeira. O caso da Jamaica, de Roberto Pereira, a respeito de sua pesquisa sobre o processo de expansão da capoeira na Jamaica
Link para o arquivo
(versão do artigo em inglês)
Roberto Pereira é documentarista, capoeira e Doutor em História Comparada pela UFRJ. Dirigiu e roteirizou O Dono da Capoeira (2014); Do Ringue aos Palcos e O Jogo da Navalha (2023). Fez estágio doutoral no Departamento de História da Universidade de Harvard, de 2009.
É autor dos livros: A capoeira do Maranhão: entre as décadas de 1870 e 1930 (São Luís: IPHAN-MA, 2019) e Rodas Negras: capoeira, samba, teatro e identidade nacional (1930 – 1960); prefácio, Flávio Gomes, (São Paulo, Perspectiva, 2023).
Referências
Roberto Pereira, “Agenciamento negro e a transnacionalização da capoeira. O caso da Jamaica”, Afro-Ásia, n. 69 (2024), DOI: 10.9771/aa.v0i69.55777, disponível em https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/55777/34438, acesso em 17/11/2025.
As imagens são do acervo do contramestre Simpson.





parabéns Matthias Assunção, esse é o verdadeiro trabalho de um historiador, divulgar assuntos novos e relevantes que são desconhecidos do mundo da capoeira, onde muitos mestres estão ocultados propositalmente pela soberba e hipocrisia de falsos reis da capoeira e mercenários donos de grupos que franquia suas marcas.
Obrigado, Mestre Celso, pelo seu apoio!
muito obrigada pelo excelente nivel de informações!