O bairro da Lapa, reduto da boêmia e da malandragem carioca

O bairro da Lapa, reduto da boêmia e da malandragem carioca

Por Juliana Pereira & Matthias Röhrig Assunção.

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PUSTKOW, Friedrich. Vista tomada de Santa Thereza. Rio de Janeiro, RJ: G. Leuzinger Ed., [1850]. 1 gravura, litografia, pb, 24 cm. Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon393034/icon393034_11.jpg.
A cidade do Rio de Janeiro, durante muito tempo, ocupava apenas uma pequena área do atual centro da cidade, ao redor da Praça XV. No século XVIII, o crescimento demográfico e o incremento das atividades econômicas fizeram a cidade expandir para o sul, por entre os morros e a orla da baía de Guanabara. Esse crescimento se deu muitas vezes sem investimento na infraestrutura necessária. Entre os problemas mais recorrentes estavam a falta de abastecimento de água potável e o alagamento de várias áreas pantanosas, formando um cenário de problemas interligados. Foram feitos então diversos aterramentos e, a fim de melhorar as condições do abastecimento de água, ainda no século XVIII, foi construído o aqueduto ligando o Morro do Desterro (Santa Teresa) ao Morro de Santo Antônio, para levar água até o chafariz no Largo da Carioca, um dos principais pontos de abastecimento da cidade. Foi utilizada força de trabalho escravizada de indígenas e africanos para a construção do monumental Aqueduto da Carioca, de 270 metros de extensão, inaugurado em 1750.
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“Lagoa do Boqueirão e Aqueduto da Carioca”: Leandro Joaquim (século XVIII). Fonte: Museu Histórico Nacional/Ibram
No ano de 1751, no terreno localizado entre a praia e o morro das Mangueiras, o padre Ângelo Siqueira Ribeiro do Prado levantou um seminário e uma capela dedicados à Nossa Senhora da Lapa do Desterro. Por isso, o largo entre os arcos e a Lagoa do Boqueirão (atual Passeio Público) logo ficou conhecido como Lapa. Embora a Lagoa fosse insalubre, a região era frequentada por muitas pessoas que por ali transitavam e faziam vários usos dela.
O romancista Joaquim Manuel de Macedo, no romance “Dois Amores”, afirmava que o Largo da Lapa do Desterro era notável pela “multidão imensa de povo, e pelos carros, ônibus e gôndolas, que incessantemente por aí transitam”. As comemorações em devoção ao Divino Espírito Santo ali eram sempre movimentadas com “oferendas” e “grandes fogos de artifício”. Em 1896, com a canalização de outros rios, o aqueduto foi convertido em um viaduto para bondes para facilitar o acesso do centro ao bairro de Santa Teresa.

A Lapa Boêmia

As transformações urbanas no Rio de Janeiro entre meados do século XIX e início do século XX contribuíram para que a Lapa despontasse como um local de sociabilidade boêmia. Ligada ao Largo do Rossio (atual Praça Tiradentes) pela rua do Lavradio, toda essa área foi atraindo restaurantes, bares, casas de espetáculo, pensões, cafés cantantes e clubes, como o Clube dos Diários e o Clube dos Políticos, na rua do Passeio, frequentados por elites letradas que movimentavam as noites com seus eventos.

O bairro também abrigou o clube carnavalesco dos Democráticos, na rua do Riachuelo, e bailes públicos mais populares que constantemente eram denunciados nos jornais por supostamente reunirem em seus salões maltas de capoeiras e outros vadios para dançar maxixe.

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Ainda sobrevivente, o Clube dos Democráticos mantém sua sede no bairro da Lapa.

De acordo com Olavo de Barros, a Lapa se tornou “reduto preferido” de artistas, poetas, mendigos, malandros, gigolôs e prostitutas que por ali não só passavam, mas residiam permitindo a convivência de vários atores sociais. Muitos artistas conhecidos em sua época eram associados à Lapa, e alguns deles são ilustres até hoje, como Lima Barreto, Villa-Lobos e João do Rio. Mas essa imagem boêmia da Lapa também é associada ao submundo da malandragem, geralmente representada por personagens negros que ali circulavam. O mais citado deles é João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã, que durante anos morou e trabalhou nos arredores da Lapa, quando não estava preso na Ilha Grande.

A partir da década de 1980, a Lapa passou por projetos de modernização e remodelação. Atualmente o bairro concentra um grande número de casas de espetáculo e movimenta a vida noturna carioca.

A roda de capoeira da rua do Lavradio, coordenado pelo Mestre Célio e o grupo Aluandê, busca dar mais visibilidade a essa tradição histórica da malandragem na Lapa.

Referências:

ARAÚJO, Vanessa Jorge. Lapa carioca, uma (re) apropriação do lugar. 2009. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional, UFRJ.

GOMES, Renato Cordeiro. O Imaginário da Lapa: Apogeu, Decadência e Reconstrução. 2014. Tese de Doutorado. PUC-Rio.

BARROS, Olavo de. A Lapa do meu tempo (1909-1914). 1968.

MACEDO, Joaquim Manuel de. Os dois amores (1848). São Paulo, 1950.

https://www.brasilianaiconografica.art.br/artigos/20233/arcos-da-lapa-de-aqueduto-a-viaduto

https://www.bn.gov.br/acontece/noticias/2015/09/rio-450-anos-bairros-rio-lapa

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