Reflexões sobre a Capoeira no Tempo Presente

Reflexões sobre a Capoeira no Tempo Presente

Luiz Renato Vieira

Aula no projeto Capoeira, na Universidade de Brasília (UnB)

Desde o início do século XX, os historiadores discutem se o objeto da ciência à qual se dedicam inclui os fatos que lhes são contemporâneos e os processos históricos que presenciam, o chamado tempo presente. Muito já se escreveu sobre o tema, o que inclui o interessante debate acerca dos marcos a serem utilizados para separar o “presente” do “passado”. Pode-se afirmar que, durante muito tempo, a leitura dos processos culturais, econômicos, sociais e políticos em curso foram entendidos como objeto exclusivo de ciências como a sociologia, a antropologia, a economia e a ciência política, entre outras áreas de conhecimento e investigação.

Sobre essa interessante questão, parece-nos lúcida e oportuna a afirmação de Eric Hobsbawm, destacando o fato de que é no tempo presente que se produzem os eventos que levam o historiador a revisar o significado dos eventos passados.1 No caso da capoeira, arte-luta surgida de manifestações de matriz africanas trazidas para o Brasil por escravizados, o século XX foi um período de intensas transformações. Para historiadores e cientistas sociais, a trajetória recente da capoeiragem fornece um conjunto impressionante de informações que formam uma espécie de síntese da modernização cultural no Brasil, com todas as suas marcas de desigualdade social, intensidade, miscigenação e apropriação e ressignificação de seus códigos por parte das camadas privilegiadas.

É com esse olhar que, a partir de experiências pessoais e referências da história recente, elaboramos esse ensaio. A intenção limita-se à reflexão sobre alguns dos inúmeros temas que povoam o debate contemporâneo relativo à capoeira no Brasil e no mundo. Se as provocações que se seguem, de forma livre e assistemática, contribuírem para suscitar o pensamento crítico sobre a dinâmica atual da nossa arte-luta, consideramos atingido o objetivo que estabelecemos.

Se tomarmos como referência a década de 1990, podemos verificar interessantes diferenças em relação ao cenário atual da capoeira no Brasil e no mundo. Naquele momento, houve um grande salto no desenvolvimento da arte-luta, que se expandiu pelo Brasil e pelo mundo. Nessa expansão, ela assumiu aspectos muito marcados de arte marcial. A história da capoeira nos ensina que essa busca de objetivos esportivos e marciais não começou ali, permeia toda a história da arte-luta no século XX. Mas naquele momento, década de 1990, parece que alguns achavam que ela poderia se tornar uma luta completa, envolvendo técnicas de socos e até luta agarrada.

Foi um período de muito crescimento, mas de muitos conflitos, por causa do que me parece ter sido uma nova busca de identidade esportiva e marcial da capoeira. Aos poucos, isso foi mudando, e a maior parte dos capoeiristas despertou seu interesse pelas dimensões pedagógicas e culturais da nossa arte-luta. Eu diria que foi uma fase que teve problemas, mas que gerou um grande amadurecimento em todos nós, individualmente, e para a capoeira como manifestação cultural.

Creio que nos tempos de hoje, o Mestre de Capoeira precisa estar em constante aperfeiçoamento. A constante atualização técnica e pedagógica do professor ou mestre de capoeira é necessária para dar conta das questões que envolvem a nossa prática esportiva, cultural e pedagógica. A capoeira é muito dinâmica, e novas informações surgem a todo momento. O mestre se torna uma base importante para muitos de seus alunos e suas alunas, principalmente para ajudá-los a filtrar esse excesso de informações nesses tempos de ampliação dos recursos digitais e tecnológicos.

Outro aspecto importante é que, como alguns estudos demonstram, é comum o mestre e a mestra de capoeira terem uma grande importância e influência na formação dos jovens, alunos e alunas. Por isso, é um ofício que precisa ser encarado com muita dedicação e responsabilidade.

Rodas de capoeira realizadas no final das aulas do projeto Capoeira na Universidade – UnB, Mestre Luiz Renato.

Ao longo de toda a sua história, a capoeira sempre sofreu influências de outras lutas e artes marciais. Isso é natural, ainda mais no caso de uma modalidade que tem como uma de suas principais características a liberdade de movimentação e o improviso. Já foram feitos muitos estudos sobre as influências de outras lutas no desenvolvimento da capoeira no início do século XX, por exemplo, seja no Rio de Janeiro ou na Bahia.

Em Salvador e em outras cidades, a capoeira disputava os espaços nos ringues com outras lutas. Como sabemos, o próprio Mestre Bimba e seus alunos foram exímios lutadores nesses espaços de combate. Nessas oportunidades, a capoeira dialogava com outras lutas e, é claro, se influenciava.

Segundo alguns pesquisadores, a própria origem da capoeira pode ser uma mistura de várias manifestações oriundas da África, trazidas pelos escravizados, que se fundiram e deram origem à capoeiragem como a entendemos hoje. Esse é um lado da questão. O outro é que, na atualidade, estamos muito mais preocupados com as questões da ancestralidade2 e da salvaguarda dos nossos patrimônios.

Dessa forma, hoje a capoeira faz uma viagem em direção ao seu passado, e não se fala muito em inovar com misturas com outras modalidades. Ao contrário: predomina atualmente um discurso de busca de uma certa “pureza”, o que coloca outras questões bastante sérias. Mas esse é um outro assunto.

Nesse cenário, temos a emergência das rodas de rua em todo o Brasil. Uma tradição brasileira que está sendo resgatada e – o que é muito interessante – ao mesmo tempo se espalhando pelo mundo. As rodas de rua são oportunidades riquíssimas de interação para os capoeiristas de todas as localidades e de todas as classes sociais. No Brasil, e em muitos outros países, a rua não é apenas um espaço físico: é um ambiente de trocas culturais e de construção da cidadania para muitos que não dispõem de outros espaços de vivência cultural. A antropologia brasileira, há décadas, formula teorias sobre o significado da rua como espaço de subversão da hierarquia e de ressignificação das manifestações culturais. Mas a rua é, também, o lugar do resgate de vivências e valores que se perdem com as características do nosso processo civilizatório.

Assim, quando um jovem frequenta uma roda de rua, ele sai do ambiente fechado e tem oportunidade de ter uma aula de cidadania e de respeito às culturas populares. Isso é muito mais do que um deslocamento físico, é um ato com inúmeras repercussões no plano simbólico e comportamental.

Claro que a roda de rua tem seus riscos e requer a condução de um mestre ou mestra experiente, que estabeleça regras para um convívio respeitoso. Havendo respeito, todos ganham e a capoeira é a maior vitoriosa. Felizmente, as rodas de rua são espaços que estão se fortalecendo cada vez mais, e essa nossa experiência está se expandindo mundo afora.

Rodas de capoeira realizadas no final das aulas do projeto Capoeira na Universidade – UnB, Mestre Luiz Renato.

Afinal, a capoeira hoje apresenta um cenário muito complexo e diversificado. Para lidar com as complexidades que se colocam, seria necessário valorizar os espaços de debate da capoeira em geral, independentemente de grupos ou outras bandeiras.

Há algumas iniciativas nessa direção, propondo um debate que vá além dos limites do grupo, valorizando a cultura da capoeira e a figura dos mestres e das mestras. É necessário valorizar a organização autônoma da capoeira, em que os capoeiristas se articulam horizontal e espontaneamente e encontram pontos de convergência e realizam projetos comuns.

Não há dúvida de que há muitos atores importantes nesse processo, incluindo grupos, confrarias, coletivos, federações e outras entidades do tipo. Entretanto, não nos parecem condizentes com as tradições da capoeira as soluções que, de vez em quando, aparecem em nosso cenário, propondo a criação de órgãos centrais de decisão sobre os rumos da arte-luta. Infelizmente, nesse caso, segmentos da capoeira se alimentam de nossa tradição centralizadora e de uma concepção de que a alteração do ordenamento jurídico pode, por si, provocar a mudança da sociedade.

Tentar resolver por meio da criação de uma nova lei algo que precisa ser feito de maneira participativa e autônoma não me parece ser a melhor solução.3 Evidentemente, isso não combina com a história de resistência da capoeira e não é condizente com a história das tradições de origem popular e de matriz africana a proposta de atribuir a um órgão determinado – um conselho profissional ou instituição congênere – o poder de conceder autorizações para exercer o ofício de professor ou mestre de capoeira. Esse é um debate que já é bastante antigo, vem da década de 1990, mas que sempre retorna.

Mestre Luiz Renato (berimbau). Mestre Zulu e Prof. Guilherme Valadão (pé do berimbau).

Parece-nos muito importante destacar que, nesse mundo de tantas novidades, o que nos mantém seguros é o conhecimento das nossas tradições. Quem busca o conhecimento do passado, das histórias dos mestres, das rodas, das dificuldades que a capoeira já enfrentou está muito mais capacitado para lidar com os desafios do presente.

Não podemos ver, necessariamente, novas abordagens da capoeira, em termos técnicos, musicais, pedagógicos ou estéticos, como deturpações. Entretanto, em se tratando de uma manifestação cultural com forte expressão de ancestralidade, como a capoeira, temos a obrigação de ter, sempre, o passado e as lutas já empreendidas como referência. Por isso, é fundamental ouvir os mestres e as mestras, conhecer suas histórias e manter sempre viva a linha de transmissão de saberes da nossa capoeiragem.

Refletir sobre esses desafios contemporâneos da capoeira, tendo a ancestralidade como referência, é escrever sua história do tempo presente.

Notas:

1  Ver, a respeito, entre outros, HOBSBAWM, E. O presente como história. In: Sobre história – ensaios, São Paulo: Companhia das Letras, 2013, e HOBSBAWM, Eric J. Un historien et son temps présent. In: INSTITUT d’Histoire du Temps Présent. Ecrire l’histoire du temps présent. Paris: CNRS Ed., 1993.

2  A noção de ancestralidade tem sido utilizada com muita frequência em trabalhos sobre capoeira e, de uma forma geral, em estudos acadêmicos e em outros contextos relacionados às manifestações culturais de matriz afro-brasileira. Nesse breve ensaio, entendemos ancestralidade como uma categoria que prioriza os elementos simbólicos que remetem a um passado de resistência cultural. Uma noção que relaciona a compreensão e a produção da realidade com referências herdadas de gerações anteriores. É, nesse sentido, um indicador de uma determinada leitura do passado e compromisso político com o enfrentamento das lutas que persistem.

3  Há alguns anos, decidi não mais participar de discussões formais sobre o tema da regulamentação da profissão da capoeira por meio de propostas legislativas, por razões pessoais e profissionais. Creio que já dei a minha contribuição nesse campo. Tenho me concentrado no trabalho de ensino de capoeira, principalmente na formação de professores e professoras, e na pesquisa sobre a nossa arte-luta na área de ciências sociais. Tive a oportunidade de registrar algumas impressões sobre esse tema no livro, de minha autoria, intitulado A capoeira e as políticas de salvaguarda do patrimônio imaterial: legitimação e reconhecimento de uma manifestação cultural de origem popular (Coleção Conheça Mais, Fundação Cultural Palmares, Brasília, 2012).