A Capoeira nos desfiles das Escolas de Samba

Tanto o carnaval quanto a capoeira têm uma longa história no Rio de Janeiro, que vem da época colonial e se divide em períodos bem diferenciados, desde o entrudo e a capoeira escrava até hoje.

Inicialmente, as habilidades dos capoeiras já os qualificavam para atuarem como passistas nos desfiles. Um número deles (até hoje não pesquisado) ocupava mesmo um papel de destaque na avenida, na função de mestre-sala. Como destaca M. Camisa em entrevista, “o mestre-sala sempre foi um capoeira pra defender a porta-estandarte”. E isso já acontecia desde a época em que pequenos clubes carnavalescos saíam às ruas e capoeiras acompanhavam e protegiam o estandarte de sua sociedade recreativa.

No início da década de 1960, os integrantes da bateria de algumas escolas também começaram a usar movimentos acrobáticos de capoeira na hora do desfile. Segundo o jornalista Carlos Leonam, a “Mangueira apresentava sua bateria com passos de capoeira”. A matéria é acompanhada de uma foto mostrando dois bateristas jogando capoeira.

De acordo com o que conseguimos apurar, a Mangueira provavelmente foi a primeira escola de samba a introduzir capoeira nos seus desfiles, em 1961. No ano de 1965 um jornalista do periódico O Jornal afirmava que:

O conjunto de Mestre Leopoldina foi o primeiro a se apresentar numa Escola de Samba. Ocorreu em 1961 e foi Mangueira quem teve a ideia de apresentar entre seus passistas um grupo de capoeiristas autênticos. O sucesso foi tão grande que a Escola repetiu a apresentação no Carnaval em 1962 e no ano seguinte também”.

Nesse desfile pioneiro de 1961, a Mangueira apresentou o enredo Recordações do Rio Antigo e se consagrou campeã. Essa inovação na coreografia do desfile é associada a Mestre Leopoldina, uma figura importante no universo da capoeira carioca, que representa, mais que nenhum outro, o vínculo da velha malandragem carioca com a capoeira moderna dos baianos recentemente introduzida no Rio de Janeiro.

Sobre essa participação da capoeira no desfile da Mangueira temos o depoimento de Mestre Vilmar:

Quando eu já tinha uns 18 anos e eu nunca tinha visto capoeira em escola de samba, o Xangô da Mangueira chegou lá no IAPC, eu não o conhecia. Ele falou com o Leopoldina para ele arrumar umas três ou quatro pessoas para sair numa ala da Mangueira, num tempo em que as escolas de samba não permitiam que pessoas de fora desfilassem. O Leopoldina perguntou se nós queríamos e nós aceitamos porque o nome do enredo era ‘Rio Antigo’, nome que mais tarde eu botei no meu grupo porque eu achei sensacional. […] Xangô chegou lá, ele já era famoso na Mangueira, a gente é que não conhecia, e Leopoldina era o capoeira mais conhecido por causa desse carisma dele. Ele encantava as pessoas. O Leopoldina levou a mim e mais uns três do grupo do Djalma e mais uns dois amigos dele. Naquela época o desfile das escolas de samba era na Presidente Vargas, da Central do Brasil até a Candelária. Nos deram a roupa, pagaram. Pagaram pra gente sair numa escola de samba. Os meus amigos ficaram com uma inveja! Um crioulinho de Olaria, botar uma fantasia da Manga! Minha mãe toda orgulhosa! Em bairro pequenininho é assim mesmo”.

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Foto da matéria publicada em O Cruzeiro, 16/03/63. Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Naciona

Assim a Mangueira foi a primeira escola a ter uma ala de capoeiristas, que desfilavam jogando capoeira. Mestre Polaco lembra que era preciso algumas adaptações já que os instrumentos não podiam ficar parados, como numa roda normal:

[…] quando a gente foi desfilar na Mangueira em [19]68 tinha que levar um atabaque né?! Um atabaque enorme. E Paraná fez um carrinho. Sabe aquele negócio que se usa hoje pra botar o atabaque ali dentro, pro atabaque não ficar balançando? Ele fez um negócio daquele só que de ferro com três rodinhas […] À medida que você ia andando, ia empurrando e tocando o atabaque ali”.

Em todo caso, a bateria da escola não parava durante o desfile, providenciando uma base rítmica para o jogo. Mestre Paulão recorda:

Nós jogávamos no ritmo do samba também. Abria a roda e dava certinho. A bateria comendo normalmente. Bate tranquilamente”. Várias outras escolas de samba incorporaram a capoeira ao seu desfile”.

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No detalhe, bateria dos Acadêmicos do Salgueiro “dá show à parte” na foto da Revista Manchete, de 13/03/1964. Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional

No Salgueiro, por exemplo, a capoeira também se encaixou bem. Essa agremiação começou a botar na avenida enredos que tematizavam a história e a cultura dos afrodescendentes no Brasil. Um exemplo disso é o enredo Chico Rei, de 1964. De acordo com o Correio da Manhã, a Escola homenagearia Chico Rei “chefe de uma tribo africana que, com vários de seus homens, foi capturado por mercadores de escravos e trazido para o Brasil”. A bateria da Escola seria composta de trezentas “figuras” e algumas tocariam berimbau para a “dança da capoeira, também dentro do tema-enredo”. A revista Manchete publicou uma foto da bateria do Salgueiro, com um integrante com pandeiro executando o que na capoeira é conhecido como “corta-capim”.

Outros enredos do Salgueiro com capoeira foram para a avenida: em 1968, Uma noite na Bahia, e, em 1969, Bahia de todos os Deuses. De fato, a escola tinha um grupo dedicado a apresentar capoeira, a Ala Rei de Ouro. O grande sucesso do samba na avenida nesses dois carnavais fez com que essa ala continuasse suas apresentações de capoeira, divulgando a arte entre os cariocas e contribuindo para sua maior aceitação social.

No Império Serrano também parece ter havido uma ala capoeira, que fazia seu ensaio na quadra da escola. Na Imperatriz Leopoldinense, em 1967, o “conjunto de Capoeira São Bento Pequeno”, estava entre as atrações que a Escola traria para o desfile A Vida Poética de Olavo Bilac, conforme noticiou o Correio da Manhã, referindo-se ao grupo de Mestre Paraná, que mais tarde sairia pela Mangueira.

Várias outras escolas de samba incorporaram a capoeira a seu desfile, ainda na década de 1960, como por exemplo a Unidos de Padre Miguel (1964), Aprendizes de Lucas (1964), Império da Tijuca (1965), Unidos do Cantagalo (1965), Império Serrano (1965), União de Jacarepaguá (1966) e Portela (1966). Posteriormente outras escolas tematizaram a capoeira no Rio de Janeiro, como Portela (1972), Estácio de Sá (1972), Mangueira (1974), Unidos de São Carlos (1976) e Quilombo (1981).

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Ensaio do Salgueiro para o carnaval de 1969, na foto do Correio da Manhã, de 07/02/1969. Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Foi assim que muitos capoeiristas desfilaram em várias escolas e blocos. Mestre Camisa, por exemplo, que morou e saiu na Mangueira, também desfilou na Portela, na São Carlos e no Canário das Laranjeiras: “Depois, desfilei na Portela, desfilei em várias escolas de samba quando o enredo pedia. Canário das Laranjeiras, que é bloco; São Carlos”.

Neste contexto é interessante notar que a maioria dos enredos que “pediam” capoeira eram relacionados à Bahia. A própria Mangueira, por exemplo, em 1962, desfilou com um enredo mais genérico, Casa Grande e Senzala – que falava tanto dos canaviais, quanto da mineração e dos cafezais; em 1963, apresentou Exaltação à Bahia e, em 1964, as Histórias de um Preto Velho tematizavam um escravo da “velha Bahia”. As outras escolas com alas de capoeira também privilegiaram a Bahia em enredos como Glória e Graça da Bahia (Império Serrano, 1966), Bahia de Todos os Deuses (Salgueiro, 1969) e Yayá do Cais Dourado (Vila Isabel, 1969). Tanto a Vila Isabel quanto o Salgueiro tematizavam diretamente a capoeira na letra de seus enredos. O Salgueiro se consagrou campeão naquele ano com o enredo que falava de um capoeira da ladeira da igreja do Bonfim, na Bahia. A incorporação de um corrido de capoeira à melodia do samba fez tanto sucesso ao ponto de a cidade inteira repetir o refrão: “Zum, zum, zum,/ Zum, zum, zum,/ Capoeira mata um”. A capoeira continuou presente nos enredos da década de 1970 e 1980.

O sucesso da capoeira nos desfiles resultou em apresentações dos capoeiristas fora da avenida. E a associação privilegiada com a Bahia sempre esteve presente, mas o importante é que a capoeira se enraizou firmemente nos desfiles cariocas. Como destacou uma comentarista, a capoeira estava “em moda nas nossas Escolas de Samba e blocos”.

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Samba enredo da Viradouro, de 1972, devidamente autorizado com o carimbo do departamento de censura. Forte: Arquivo Nacional

Esse texto é um resumo do material do artigo “Ginga na Avenida”, no qual constam todas as referências às entrevistas e as matérias de jornais citadas.

Referências:

Assunção, Matthias Röhrig, & Souza, Carlos Eduardo (2019). Ginga na Avenida: a capoeira no carnaval carioca (1954-1976). Revista Nordestina De História Do Brasil, 2(3), 83-103. https://doi.org/10.17648/2596-0334-v2i3-1491

CUNHA, Maria Clementina Pereira. Ecos da folia: uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. Editora Companhia das Letras, 2001.

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