Paulo Afonso Costa de Souza, mais conhecido como Mestre Khorvo, foi aluno de Mestre Mintirinha na década de 1960, quando treinava com outros capoeiristas que também se tornariam famosos. Foi assim que, a partir de 1968, Khorvo, Paulão e Silas já davam aula como professores. Como o grupo de Mestre Mintirinha se chamava “Kapoarte de Obaluaê” (e depois apenas “Kapoarte”), eles se apelidavam “Netos da Kapoarte”. Davam aula no clube Boqueirão do Passeio, perto do aeroporto Santos Dumont.
Levi Tavares de Souza (junho de 2026)
Khorvo* nasceu no Rio de Janeiro em 21 de julho de 1949. Filho de Celestino Antônio de Souza e Júlia Costa de Souza, era o mais velho entre os irmãos Júlio César, Cláudio Antônio e Rosângela Amara. Com o pai trabalhando como ajudante de pedreiro, e mais tarde mestre de obras, era integrante de uma família simples no bairro de Brás de Pina, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
* Nos escritos da capoeira encontramos igualmente as variações de grafia Korvo e Corvo.
Em 1972, Khorvo, Silas, Paulão, Periquito e Grande foram “apresentados” pelo Mestre Mintirinha. Como naquela época não havia formatura como hoje, o mestre declarava publicamente, durante uma roda ou numa reunião, que aqueles alunos já estavam prontos e, como tal, já podiam se sentar ao lado dos mais velhos. Isso queria dizer que, a partir daquele momento, estavam habilitados a fazer parte das reuniões de conversa dos mais velhos. É importante lembrar que naquela época os mais novos não se sentavam à mesa para participar de decisões, nem para ouvir conversas, sem estarem autorizados.
Com a criação da Federação de Capoeira, Khorvo e os outros receberam o cordel verde e branco de mestre. Nesta época, Khorvo começou a dar aula de capoeira, com os também mestres Paulão e Silas, no clube do Bolinha, no morro de Tuiuti, no bairro de São Cristóvão. Daquele grupo inicial de discípulos de Mintirinha, Periquito e Grande não ensinaram, nem tiveram alunos.
Em seguida cada um estabeleceu seu próprio grupo: Mestre Paulão criou o grupo Muzenza em 1972, Mintirinha deixou Silas continuar o grupo Kapoarte, e Khorvo inicialmente idealizou o grupo “Esporte Nacional” para dar aulas. Pouco depois, em 1975, fundou a “Associação de Cultura Física e Capoeirologia Cruzeiro do Sul”, mais conhecida como “Cruzeiro do Sul”. Nessa época o mestre dava aulas nos bairros da Lapa (na Associação Cristão de Moços ─ ACM), Penha e Olaria, entre outros. Nessa época, um de seus alunos mais avançados era Levi, o autor dessa notícia biográfica, que então já treinava uma turma grande em Caxias.
Mestre Khorvo era compositor e excelente ritmista, capoeirista de inigualável elegância na sua forma de expressão corporal. Uma característica de sua personalidade era sempre mediar e promover conversas para contornar conflitos entre os camaradas.
Reconheceu sete alunos ao longo dos trabalhos em sua escola. O primeiro formado foi um de seus irmãos, Cláudio (in memorian), que inclusive herdou o diminutivo do seu apelido, Khorvinho. Em seguida veio José Paulo Pereira da Silva, chamado inicialmente ldi Amin, que mais tarde herdou o apelido do irmão de Mestre Khorvo e também passou a ser chamado de Khorvinho. Depois vieram Luís Francisco da Silva, conhecido como Lua, e Edmilson Cambraia, que era o Amarelinho (in memorian). No dia 15 de novembro 1981, na presença de muitos mestres como Djalma Bandeira, Rui Henrique, e Zé Maria, Khorvo concedeu mais duas graduações de mestre (cordel branco e verde), para Sérgio Rodrigues da Silva (M. Montana) e Levi Tavares de Souza (M. Levi). O último formado pelo mestre foi Marlon Pimentel (in memorian).
Khorvo participou de importantes exibições de capoeira, como o 1º Campeonato Panamericano de Karatê, realizado em novembro de 1973, no Maracanãzinho, ocasião em que se apresentou para uma enorme audiência. A convite da Confederação Brasileira de Pugilismo (onde o Departamento de Capoeira estava inicialmente alocado), Mestre Mintirinha levou Khorvo, Paulão, Dentinho, Zé Maria, Bogado e outros para a apresentação.


Nas imagens ao lado: Prospecto, produzido na década de 1970, para a divulgação das aulas de M. Khorvo em Santa Cruz, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. Foto do acervo de M. Levi.
Cartaz de divulgação do 1º Campeonato Panamericano de Karatê, evento em que capoeiristas convocados pela CBP se apresentaram em 1973. Imagem do acervo de M. Paulão da Muzenza.
Mestre Khorvão, como ele gostava de ser chamado, era cabo do Exército Brasileiro, e serviu no Terceiro Regimento de Carros de Combate (3º RCC), como piloto de carro de combate, e trabalhando também na recuperação desses veículos. Já afastado de suas funções militares, mudou-se para Canoas (Rio Grande do Sul), com a intenção de implantar um núcleo de sua escola naquela cidade. No Rio de Janeiro ele havia deixado os seus mestres para darem continuidade ao seu trabalho.
Mais tarde ele retornou com urgência à sua cidade natal para tratamento de um câncer na região do abdômen. Já estava internado internado no HCE – Hospital Central do Exército, quando saiu do hospital para formar seu último discípulo, Marlon Pimentel. Mestre Khorvo faleceu no dia 16 de dezembro de 1986.
Levi Tavares de Souza está no mundo da capoeira desde 1968, com atuação proeminente em Duque de Caxias, município que sedia seu grupo Escola de Capoeira Casa do Engenho. M. Levi ministra aulas de capoeira e oferece palestras sobre sua história, além de ser consultor do projeto CapoeiraHistory.com.
