Mestre Barbosa (1945-2013)

Mestre Barbosa foi um pioneiro da capoeira institucionalizada na Baixada Fluminense, tornando-se uma figura importante da capoeira em Duque de Caxias, onde é lembrado como um dos pioneiros desta tradição.

Jonas Rabelo (Mestre Russo de Caxias) e Marcelo Cardoso da Costa.

Mestre Barbosa exerceu grande influência na formação de mestres da região. Embora existam poucos registros escritos sobre sua trajetória, o seu legado permanece vivo na memória de antigos capoeiristas e na formação de diversas gerações que ajudaram a consolidar a capoeira duquecaxiense a partir da década de 1970.

Em um período em que a capoeira ainda enfrentava preconceitos e tinha pouca estrutura institucional, Mestre Barbosa destacou-se como mestre e professor, ensinando a técnica da capoeira, abrindo portas para essa modalidade em espaços privados de academias, clubes e espaços institucionalizados.

Mestre Barbosa Master Barbosa
Mestre Barbosa na foto de Maria Bufzanowski.

Apresentando o mestre

José Barbosa da Silva nasceu em 1º de novembro de 1945, sendo o primogênito de uma família numerosa de onze filhos. Seu pai era funcionário da prefeitura, oriundo de São Lourenço da Mata e sua mãe era dona de casa e paraibana. Foi criado no bairro de Bomba do Hemetério, na zona norte de Recife, localidade conhecida por abrigar algumas agremiações tradicionais de frevo, samba, bois, caboclinhos e maracatus. Podemos imaginar, seguindo a historiografia da capoeira pernambucana, que capoeiristas marchavam à frente das agremiações para “abrir caminho” e defender o grupo de rivais, seja através de golpes ou pela destreza no uso da faca ou cassetete. Certamente capoeiristas valentes de Recife, como os lendários Nascimento Grande, Adama, Chico Cândido e Antônio Florentino1, estiveram na imaginação do menino Barbosa.

Nas décadas de 1950 e 1960, o bairro da Bomba do Hemetério transitou de uma região rural para a consolidação de um bairro operário, com rápida expansão urbana desordenada, habitações precárias e escassa infraestrutura – principalmente nas áreas de saneamento básico, transporte e água. Esse período foi marcado pelo auge do êxodo rural para os grandes centros urbanos do país, São Paulo e Rio de Janeiro. Foi assim que, aos treze anos de idade, Barbosa e sua tia se juntaram a outros nordestinos e embarcaram no ônibus Princesinha do Agreste com destino a São Paulo, em busca de melhores oportunidades de vida.

Na capital paulista, mais precisamente na Estação da Luz, Barbosa aprendeu a lutar boxe, pois, segundo ele, naquele tempo “a capoeira não existia, porque ela era toda… não sei nem como te dizer… perseguida…ela era camuflada”2. Aos quinze anos, resolveu colocar de novo a “perna no mundo” e veio para a cidade do Rio de Janeiro fugindo da sua tia, pois , “[…] eu jogava muita bola, queria jogar bola de dia de sábado e de domingo e ela não deixava. Até hoje ainda jogo.”3

Contando com as economias que havia guardado, fruto do seu trabalho na pensão de sua tia, ele veio procurar parentes no bairro Centenário, município de Duque de Caxias. Trabalhou em diferentes atividades, como padaria, tapeçaria e serviços administrativos, além de servir na Aeronáutica, onde fez parte do quadro de policiais dessa força armada.

Segundo seu relato em entrevista, no Rio de Janeiro, Barbosa teve seu primeiro contato com a capoeira nas areias da praia de Copacabana, ainda antes de ser aluno Artur Emídio. Ele conta também que, a partir de 1965, quando foi para o município de São João de Meriti, teve aulas com Valdir Sales. Percebemos, portanto, nas memórias do mestre, que ele experimentou a capoeira tanto em sua fase livre e intuitiva, quanto na forma institucionalizada.

Em entrevista concedida ao Museu da Pessoa, em 2007, Mestre Barbosa narrou seu primeiro contato com a lendária Roda da Central do Brasil: “[…] a capoeira mais pesada que eu encontrei foi na Central do Brasil, era tudo malandragem e eu, muito garoto, e eles não deixava eu jogar. Aí um dia um velho disse: ‘Deixa o menino vê se ele sabe jogar!’ Aí não joguei nem dois minutos, me expulsaram” 4. Suas impressões fortalecem a tese de que a Roda da Central eram uma espécie de rito de passagem para capoeiristas.


1Brasil, Dossiê, 2007.

2Marques e Almeida, “Entrevista”, 2007.

3Mestre José Barbosa Silva, depoimento, 2007.

4Marques e Almeida, “Entrevista”, 2007.

A trajetória da capoeira de Mestre Barbosa: importância e contexto social

Foi extensa e diversificada a atuação de Mestre Barbosa na capoeira da Baixada Fluminense. Neste época, o município de Duque de Caxias vivia intensa expansão urbana e forte crescimento populacional, possuindo diversas manifestações da cultura popular, mas a capoeira ainda enfrentava preconceitos e repressão policial. Nesse contexto, Mestre Barbosa iniciou um trabalho pioneiro de organização da modalidade, transformando uma prática muitas vezes marginalizada em atividade educativa, esportiva e cultural. Segundo seu próprio relato, ele sofreu diversas formas de repressão durante os primeiros anos de atuação, mas persistiu na defesa da capoeira como expressão legítima da cultura brasileira.

Primeiro, Barbosa se instalou na Academia de Valdir Sales, em São João de Meriti, em seguida também deu aulas na Academia 24 de Abril e no Center Clube. Em 1969, ele começou um projeto de ensino da capoeira no bairro da Vila São Luís, em Duque de Caxias. Neste período, as aulas aconteciam na casa dos padres da Igreja Nossa Senhora da Conceição, à qual ele tinha acesso por fazer parte do grupo jovem.

A partir de 1970 teve início sua longa passagem pela Academia Líder, para onde confluíam seus alunos dos outros estabelecimentos onde atuava, tanto do 15º Batalhão da Polícia Militar de Duque de Caxias, como das aulas em Vila São Luís ou de São João. Segundo as palavras do mestre: “Cheguei a ter mais ou menos uma faixa de mais de 50 ou 60 alunos na Líder” 5. Seu Grupo de Capoeira Regional chegou a participar do torneio Interclasse que, conforme ele explicou: “durou um mês e meio e era uma competição que juntava as academias que estavam registradas pela Federação de Pugilismo do Rio de Janeiro e outros campeonatos. Nós fomos quarto lugar!”6 Desta forma, Mestre Barbosa contribuiu fortemente na formação de futuros capoeiristas da região, dentre eles, os mestres Russo de Caxias, Peixe e Velho.

Barbosa ressaltava a importância de pesquisar a capoeira e conhecer a história dessa tradição. Ele gostava, inclusive, de teorizar sobre as derivações que a luta desenvolveu: “[…] temos quatro tipos de capoeira, eu quero isso bem gravado! Estilizada pro inicio tá! A Capoeira Primitiva, primeira; depois Estilizada; Regional e a Angola, ou seja, de trás pra frente: Angola, Regional, Estilizada e Primitiva”.7

Em 1975, ele abriu uma academia dedicada à capoeira, na rua Professor Henrique Ferreira Gomes. Registrada em cartório como Academia Caxiense, era conhecida como Associação de Capoeira Zum Zum Zum. No entanto, com o tempo, outras atividades precisaram ser incluídas a fim de cobrir os custos de manutenção do espaço.

Com o Zum Zum Zum, Mestre Barbosa se tornou um dos maiores precursores da capoeira na Baixada Fluminense, em um período em que a capoeira lutava pela sua institucionalização e reconhecimento como luta esportiva pela Federação Brasileira de Pugilismo. Neste processo de formalização, os grupos de capoeira adentravam os espaços privados de academias, clubes, espaços culturais e sociais – contando com infraestrutura administrativa, fichas de alunos, mensalidades, uniformes, formalização de graduação e de movimentos.

Fundada no “coração” da cidade, a academia de Mestre Barbosa transferiu o aprendizado, que antes ocorria apenas de forma livre e informal em espaços públicos, para um ambiente estruturado de academia, criando espécie de “berço” da profissionalização da capoeira e dos capoeiristas. A escola ficou conhecida por sua técnica marcante de misturar a malandragem da capoeira tradicional, que vinha do Nordeste, com o dinamismo urbano exigido nos desafios de roda do Rio de Janeiro.


5Marques e Almeida, “Entrevista”, 2007.

6Marques e Almeida, “Entrevista”, 2007.

7Marques e Almeida, “Entrevista”, 2007.

Capoeira na rua e na academia

No desenvolvimento da capoeira em Duque de Caxias, vamos perceber a existência de sua prática em dois espaços diferentes: o espaço público, das praças, ruas e terrenos baldios, e o espaço privado, das academias, clubes e espaços culturais/sociais. Essa vivência da capoeira era cercada de tensões e conflitos, devido à disputa pela tradição da capoeira e do momento em que ela se encontrava, havendo os que lutavam pela sua institucionalização formal em espaços privados e aqueles que alegavam que a sua tradição pertence ao espaço público e que não deveria ser formalizada em uniformes, regras ou estilos.

Neste embate, os mestres Barbosa e Josias da Silva, dois representantes de academias de capoeira em Duque de Caxias em espaços privados, eram contrários a que seus alunos/discípulos, frequentassem a capoeira de rua. Ironicamente, no entanto, os mestres Cobra Mansa (Cinézio Feliciano Peçanha) e Jurandir (Jurandir Francisco Nascimento), oriundos da Academia de Josias da Silva, assim como os mestres Russo (Jonas Rabelo), Peixe (Itamar da Silva Barbosa), Rogério, Velho (Ulisses Ribeiro de Sousa) e Marcão PQD (Marcos Antonio dos Santos), integrantes da Academia Zum Zum Zum do Mestre Barbosa, foram todos eles os responsáveis pelo surgimento do da tradicional Roda de Caxias, hoje famosa por ser uma das mais antigas rodas de rua.

Em seu artigo sobre os 50 anos da Roda de Caxias, Heraldo Hb – cineasta, animador cultural, escritor e educador duquecaxiense, também estabelece certa relação entre Mestre Barbosa e a Roda de Caxias.

Segundo os capoeiristas ligados a Barbosa e Josias que romperam a formalidade da capoeira e iniciaram a trajetória da capoeira de rua no centro do município, as questões financeiras desencadearam a dissidência. O processo de renovação na academia, impactava a questão social e econômica dos alunos que não tinham condições de pagar as aulas8. Para Mestre PQD, “[…] começamos a jogar capoeira de rua, porque não tínhamos espaço e nem condições de ter uma academia”9. Alguns ainda tentaram soluções alternativas, como os mestres Peixe e Velho que, sem condições de pagar pelas aulas de capoeira na academia de Mestre Barbosa, eram os responsáveis por organizar as fichas dos alunos e ajudar na limpeza do espaço10.

Outro fator que teria alimentado a dissidência foi o surgimento de uma maior necessidade de controle dos alunos. Mestre Rogério avaliou esse momento da seguinte forma: “[…] essa dissidência não virou um grupo de salão, mas virou um grupo de rua, que é um sistema livre de se organizar”11. Quando consultado sobre por que foi contrário à participação dos seus alunos na Roda de Caxias, Barbosa justificou o fato da seguinte forma: “é porque, não sei se você ouviu, mas eles jogavam de short, calção de praia, não havia uma nomenclatura”12 (Almeida, 2004, apud Russo de Caxias, 2005, p. 61). O mestre, de fato, parecia se incomodar com o fato de não haver uma padronização da capoeira e dos capoeiristas.

Mestre Barbosa argumentava que era preciso avaliar o contexto dessa ruptura e de tudo o que estava acontecendo no cenário político, pois era a época da ditadura militar e das disputas dentro da própria capoeira. Ele alegava que o grande problema era que vinham pessoas de fora de Duque de Caxias, inclusive capoeiristas informantes da repressão para a Roda de Caxias com o objetivo de arrumar confusão e perseguir capoeiristas13.


8Costa, “A Baixada tem ginga”, 2024.

9Russo de Caxias, Capoeiragem, 2005, p. 61.

10Barbosa, depoimento, 2023.

11Russo de Caxias, Capoeiragem, 2005, p. 63.

12Russo de Caxias, Capoeiragem, 2005, p. 61.

13Marques, depoimento, 2023.

Mestre Barbosa master barbosa

Mestre Russo de Caxias, testemunha ocular dessa história, ratifica neste post as declarações já feitas em seu livro."Capoeiragem: Expressões da Roda Livre".

Ele lamenta o fato destes dois mestres, Barbosa e Josias da Silva, terem se mantido na adversidade com relação à prática da capoeira nas ruas, pelo simples fato de entenderem que as rodas realizadas por nós eram um movimento contrário à organização institucional que buscavam. Reitera Mestre Russo: “Deixo claro aqui que reconheço o espaço que esse tipo de capoeira alcançou e nem quero tirar deles a importância que tiveram para a história da capoeiragem duquecaxiense, mas meu pensamento é diferente, pois me interessava mais a capoeira próxima à manifestação popular, à espontaneidade, ao improviso e à liberdade. Por isso a ideia de Roda Livre de Caxias e também, atualmente, o Movimento de Integração Livre (MIL) a que me dedico.” Na foto acima: Mestre Russo diante da casa de Mestre Barbosa em Caxias.

Legado e Ancestralidade

Mestre Barbosa faleceu no dia 25 de julho de 2013, deixando uma marca na história como um dos pilares que ajudaram a estruturar o ensino e prática da capoeira duquecaxiense. Em 2006, através dos historiadores e ativistas culturais Alexandre Marques e Mestre Gegê, o projeto Capoeira Viva, do Ministério da Cultura (MinC) contemplou a capoeira do município de Duque de Caxias e o seu legado foi reconhecido em registros, projetos escolares e sociais. Nesta ocasião, Mestre Barbosa teve sua trajetória documentada, celebrada e visibilizada em seu legado e ancestralidade, tendo sido premiado e alçado à categoria de mestre “Griô” desta tradição em 200814, procuraram os mestres de capoeira e inscreveram eles no edital deste projeto.

Recentemente, o Museu Vivo da Capoeira (MVC), instituído em 2021, vem propondo uma homenagem ao Mestre Barbosa, definindo a data da sua “passagem” como uma referência para a criação do dia municipal da capoeira na cidade15. Acreditamos ser essa uma das formas de manter viva sua memória e seu legado para a capoeira duquecaxiense.

14Marques; Filho, 2011.

15Maciel, 2023.

mestre Barbosa

Jonas Rabelo é Mestre Russo de Caxias ou zelador da capoeira, como gosta de se identificar, é carioca e identificado com os municípios de Duque de Caxias e Belford Roxo - Baixada Fluminense. É um dos integrantes da Roda de Caxias e escreveu o livro “Capoeiragem: expressões da Roda Livre de Caxias” (2005). Atualmente é um dos organizadores do Movimento de Integração Livre (MIL).

Marcelo Cardoso da Costa é pesquisador da capoeira, suburbano, professor de Sociologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro – Campus Duque de Caxias (IFRJ-CDuC) e doutor em memória social (PPGMS/UNIRIO).

Para saber mais:

Livros e revistas

Almeida, M. N.; T. L. Bartholo; e A. J. G. Soares. “Uma roda de rua: notas etnográficas da roda de capoeira de Caxias.” Revista Portuguesa de Ciência do Desporto 7, n. 1 (2013): 124–133.

Brasil. Dossiê: inventário para registro e salvaguarda da capoeira como patrimônio cultural do Brasil. Brasília: IPHAN, 2007

Costa, Marcelo Cardoso da. “A Baixada tem ginga: memórias, histórias e narrativas dos praticantes de capoeira no território da Baixada Fluminense.” Tese de doutorado em Memória Social, UNIRIO, 2024.

Marques, Alexandre dos Santos; Geraldo da Costa Filho. “A trajetória da capoeira em Duque de Caxias.” Revista Pilares da História, ano 10, edição especial (ago 2011): 79-90.

Marques, Alexandre dos Santos; Tania Maria da Silva A. Almeida. “Entrevista com o Senhor José Barbosa da Silva.” Revista Pilares da História, ano 6, nº 7 (maio 2007): 76-82.

Russo de Caxias, Mestre. Capoeiragem: Expressões da Roda Livre. Rio de Janeiro: Impresso, 2005.

Entrevistas

Barbosa, Itamar da Silva (Mestre Peixe). Depoimento em 25 de julho de 2023. Entrevistador: Marcelo Cardoso Costa. Duque de Caxias: IFRJ / CDuC. 2023. Gravação MP3 sonoro. Entrevista concedida ao projeto “A capoeira na Baixada Fluminense: memória e narrativas dos seus mestres” do IFRJ / CDuC, [s. p. ].

Maciel, Luís Carlos Terras Maciel (Mestre Lula). Depoimento em 6 de fevereiro de  2023. Entrevistador: Marcelo Cardoso Costa. Duque de Caxias: IFRJ/CDuC. 2023. Gravação MP3 sonoro. Entrevista concedida ao projeto “A capoeira na Baixada Fluminense: memória e narrativas dos seus mestres” do IFRJ/CDuC, [s. p.].

Marques, Alexandre dos Santos. Depoimento em 23 de abril de 2023. Entrevistador: Marcelo Cardoso Costa. Duque de Caxias: IFRJ/CDuC. 2023. Gravação MP3 sonoro. Entrevista concedida ao projeto “A capoeira na Baixada Fluminense: memória e narrativas dos seus mestres” do IFRJ/CDuC, [s. p.].

Silva, José Barbosa. Mestre José Barbosa da Silva: depoimento em 25 de maio de 2007. Entrevistadores: Tiago M. e Cláudia L. Vassouras, Rio de Janeiro: Museu da Pessoa. 2007. Gravação MP4. Entrevista concedida ao projeto “Memórias dos brasileiros”.

Seminário Caxias tem ginga. Capoeira viva na cidade: Políticas públicas e cenário atual, 2020a. [ S.I.]: Rádio Capoeira, 11 dez. 2020. 1 vídeo (2h13 min). Live. Disponível em: https://www.youtube.com/watch? v=2PGmNicOVo8. Acesso em: 12 mai. 2021.

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