O moringue entre o desaparecimento e a reinvenção

O moringue entre o desaparecimento e a reinvenção

Por Loran Hoarau e Emmanuel Souffrin.

Dança de combate, boxe tradicional, jogo ancestral, esporte de combate, jogo popular tradicional, produto da civilização malgaxe, patrimônio vivo, arte de combate, as definições em torno do moringue na Ilha da Reunião são indicativos de práticas que têm evoluído gradualmente.

Se hoje coexistem várias formas, o interesse por estas práticas não está apenas em suas origens (todas reconhecem uma estreita ligação com Madagascar e a África), mas também em seu desenvolvimento como práticas esportivas em correlação com a afirmação de práticas culturais ou mesmo culinárias.

Este texto apresenta dados de uma pesquisa antropológica sobre o Moringue, realizada entre 2013 e 2015, visando melhor conhecê-lo, transmiti-lo e valorizá-lo, com vistas à sua inclusão no patrimônio cultural intangível da UNESCO, equipe multidisciplinar reunida pela ESOI, Région Réunion, 2015. O estudo vai além da estrutura das práticas atuais e antigas na Ilha da Reunião e faz a ligação com as práticas observadas em outras ilhas do Oceano Índico.

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Luta. Cartão postal. Imagem do Acervo Loran Hoarau.

1 – Desaparecimento

Do período de trabalho forçado (engagé) ao Tan lontan, leituras de alguns vestígios deixados pelo moringue

Desde o início do século XX até o final dos anos 1970, é muito difícil encontrar vestígios do Moringue. Ele passou do status de “variedades”, na imprensa, em 1907, para o de romance colonial em Ulysse Cafre, de Marius e Ary Leblond, em 1924. Estes três momentos correspondem a verdadeiras batalhas. Não se pode traçar “regras” a partir destes testemunhos parciais, mas eles dão muitos detalhes que são interessantes de anotar e contextualizar.

 Antes…

A partir de 1735, foram instaladas senzalas em uma vasta área ao redor da cidade de Saint-Denis, onde se concentrava a maioria dos escravizados. Essas habitações constituíram um espaço estruturado e foram utilizadas desde o período escravista até o período de trabalho forçado (engagiste, 1848 – 1938). A paisagem destes bairros permaneceu a mesma por cerca de 230 anos.

Os bairros eram separados geograficamente por pequenos penhascos e sociologicamente organizados em torno de famílias que cresceram e cujos descendentes expandiram o núcleo original do assentamento. Espaços divididos por ladeiras, com suas lojas e encruzilhadas materializam a diversidade da noção de espaço público nesses bairros. É nestes espaços que se situa o moringue do início do século XX.

Na Rue de Bois de Nèfles, o moringue estava em pleno andamento das 2 às 6 horas. […] Sentados em círculo, um pouco abaixo da loja do chinês, um bando de canalhas, todos mais ou menos frequentadores de tribunais, batiam em caixas e latas; enquanto dois deles, no meio do círculo, evoluíam de forma grotesca”1.

Este artigo está interessado apenas na cena (uma roda, perto da loja) e não em uma descrição precisa das lutas, sendo a descrição dos instrumentos o único elemento que especifica o momento. Foi somente em 1924, no livro Ulysse Cafre, de Marius e Ary Leblond, que tivemos detalhes da luta. Os Leblond mostram soldados moçambicanos e comorianos praticando o “Moreng” ao som de um tambor de negro, o tambour cafre. A fase de combate utiliza principalmente os punhos e os dois corpos estão como que “soldados” juntos. O objetivo é “atingir o adversário para fazê-lo cair”. Os lutadores usam rasteiras. A prática continua marcada pelo fair play: os lutadores não “lutaram como selvagens, mas como camaradas”. A forma descrita pelos Leblond tem uma relação muito forte com a forma atual da Croche2.

O escritor Jean Albany fornece elementos de vocabulário que permitem apreciar o campo léxico do combate: talon z’hirondel, jambec, bourrante, sous-gorge. Ele apresenta o moringue como uma “dança de guerra de origem africana que se tornou crioula”. Alguns desses golpes são semelhantes ao boxe francês. […] Foi praticado nos sábados à noite, após o pagamento, não muito longe dos campos e fábricas onde trabalhavam os operários recrutados”. Esta associação do moringue ao trabalho forçado dos engagés é uma das características fortes das práticas descritas3.

O poema de Jean-Claude Thing-Léo intitulado “Moraing”4 estende a cronologia até os anos 1970. Ele põe em cena o personagem Caf Convert, o rei combatente. É o primeiro texto a combinar uma descrição física dos lutadores, com a música (bob e kayamb5) e a cenografia do moringue através da roda. Ele dá elementos de vocabulário: coup d’pié bourant, in cal, in lanver, talon zirondel. Ele também aponta um final san dispit (sem disputa).

O quase desaparecimento das Artes da Rua

A imagem de arquivo nos permite explorar o campo do entretenimento popular. Ela dá conta da presença de formas artísticas e lúdicas compartilhadas que hoje são classificadas globalmente sob o nome de Artes de Rua. Na Ilha da Reunião, as artes de rua conectam populações de diferentes meios e origens sociais. Essas formas de entretenimento se tornaram visíveis a partir do momento em que diferentes tipos de mídia (litografia, papel prata) permitiram capturá-las e divulgá-las em grande tiragem, como a produção de álbuns e a publicação de cartões postais). Podemos nos concentrar na segunda metade do século XIX, quando a tecnologia tornou possível esta captura.

As Artes de Rua incluem formas de arte popular, como marionetes de rua, moringue e carnaval. Também estão incluídos personagens como jacquots (“zako”) ou cantores de rua. Elas se caracterizam por uma grande variedade de formas e abordagens artísticas, que são alimentadas por tradições e práticas populares. Essas manifestações são instaladas no espaço público. Até os anos 1950, havia um carnaval construído em torno de um desfile disfarçado, provavelmente em uma época próxima ao Mardi Gras.

Moringue, Mardi Gras e futebol

Os “jovens” de nossa época poderão contar os momentos agradáveis e emocionantes que eles passaram nas tardes de domingo, faz uns cinquenta anos. eles poderão lhe contar sobre os momentos agradáveis e emocionantes que passaram nas tardes de domingo, cerca de cinquenta anos atrás. Em Saint-Denis, a partir das quatro horas da tarde, no Camp-Ozoux, nos Lataniers, na rue de l’Embarcadère perto da praça da estação, podia-se ouvir o animado som do pandeiro que chamava os jovens proletários e os convidava para as sessões de moringue. Era o esporte popular da época! O boxe, o futebol e o basquete eram desconhecidos.

O moringue tinha seu encanto. Exigia flexibilidade, agilidade e resistência de quem a jogava. O público, em círculo, aplaudia o som rítmico do pandeiro. Eram noites agradáveis, até que a política e o rum transformavam tudo em briga sangrenta com pedras. As autoridades municipais e policiais tiveram que intervir e proibir esta manifestação que se tornou um perigo público.

  

2 – Renascimento

A redescoberta (1986)

De 3 a 12 de outubro de 19866, aconteceu, no Parque do Oasis, em Le Port, a festa do jornal Témoignages (“Testemunhos”), do Partido Comunista Reunionense. Foi neste contexto que houve conferências culturais e o público teve a oportunidade de descobrir um espetáculo de capoeira, oferecido por lutadores brasileiros, e de ouvir Henri Lagarrique, antigo praticante do moringue, então com 70 anos. Ele era um importante portador da memória de Maloya. Ele era o pai de Simon Lagarrigue (gramoun Dada) e de Yvrin Lagarrigue, casada com Firmin Viry, um conhecido músico maloya. A iniciativa dos Témoignages, cruzando a prática moderna da capoeira com a antiga prática do Moringue, será um momento chave de redescoberta do moringue através da prática da capoeira.

 O moringue “esportivizado” (1992-1997)

 A cronologia seguinte nos permite resumir um período rico no qual o moringue fazia parte da paisagem cultural e esportiva da Ilha da Reunião.

 Em 1992, foi publicado um livreto intitulado Moringue: Arte Guerreira7 e, no ano seguinte, foi criada a Kan Villèle, primeira associação de moringue, perto de uma antiga fábrica de açúcar. No mesmo ano, a primeira exposição moringue foi apresentada no museu Villèle. Através do trabalho realizado em torno da codificação, em 1992, Jean René Dreinaza, ex-campeão de boxe e praticante de moringue, tomou pra si o objetivo de fazer renascer e adaptar à modernidade esta atividade cultural e tradicional. Este período foi marcado por movimentos de jovens representados em manifestações de rua. Encarregar-se de alguns desses jovens negligenciados, integrando-os em estruturas existentes ou futuras, também é um elemento que envolve a reflexão sobre a estruturação do moringue em duas etapas8.

 Por um lado, em 1993, no âmbito de uma exposição sobre o moringue no Museu de Villèle, foram realizados intercâmbios entre jovens, praticantes e Jean René Dreinaza. O livro de André Jean Benoît, Le Moringue, son histoire à travers la presse et les textes anciens (Saint-Gilles Les Hauts, Villèle, CURAPS, Université de La Réunion, 1994) fornece uma ligação entre o museu e os praticantes de moringue9. O projeto visou acompanhar um grupo de jovens do bairro em um processo de integração através do esporte. No domingo, 3 de novembro de 1993, aconteceu o primeiro encontro entre os jovens e Jean René Dreinaza, realizado através da associação Kan Villèle. O objetivo era formar um grupo de jovens do bairro para um espetáculo de moringue em 20 de dezembro de 1993. O acompanhamento musical foi feito pela associação Fowar do CASE du Chaudron e por jovens treinados pelo percussionista Nicolas Moucazambo.

Em 1995, foi criada a primeira escola de moringue contemporânea da Reunião, BATAY COQ. Seguiram-se numerosos eventos e encontros internacionais e, em 1999, aconteceu o primeiro festival internacional de danças tradicionais de combate na Reunião, com convidados do Brasil, Martinica, Guadalupe, Comores, Mayotte e Madagascar.

Por outro lado, em 1996 é criado o Comitê de Moringue da Reunião, o que levou a um pedido de reconhecimento da disciplina pelas autoridades públicas. Neste mesmo ano, o movimento moringue foi oficialmente aprovado pelo Ministério da Juventude e dos Esportes como uma disciplina esportiva de pleno direito, especializada em “artes e tradições populares e etnografia”10.

Este reconhecimento permitiu que o movimento se construísse através de dispositivos oferecidos pelo Estado para atender às necessidades dos jovens antes da introdução de um diploma de qualificação para 7 jovens em 1997. Em 1996, o comitê tinha 17 clubes espalhados por 24 municípios e 5 líderes esportivos e socioculturais foram contratados por 5 anos.

Em 1998 é criada a associação Moringue Angola11. Ela propõe uma outra forma de pensar a prática do moringue, ancorando-a numa forma chamada “Moringue 46”, em referência ao nome de um bairro, onde o moringue ainda era praticado nos anos 1970, e cruzando sua prática com a da capoeira. Em 2002 a associação se apresenta como a primeira escola de capoeira do Oceano Índico.

Em 2019, havia 11 escolas afiliadas ao Comitê de Moringue de Reunião e, no ano seguinte, a ilha tinha 750 licenciados, ancorando assim a disciplina em um grande número de pessoas. Nesse mesmo ano, dois praticantes e historiadores, Jean René Dreinaza e Joseph Ardon, publicaram Techniques et apprentissage du Moringue Réunionnais (“Técnicas e Apredizado do Moringue Reunionense”)

Conclusão

Este exercício esclarecedor deverá ser revisto no decorrer de futuras pesquisas que permitirão ligar os contextos sociológico, urbano, político, arqueológico e genealógico à questão do moringue. Hoje também parece necessário encontrar o meio termo para reconciliar as memórias do moringue e a forma esportiva. Também é necessário refletir sobre as interações entre a croche e o moringue, que exigem um paralelo histórico para uma leitura sob o prisma das artes de rua. Para isso, é necessário um projeto de memória para reunir e confrontar os traços que ainda hoje são palpáveis.

Em 2021, a Região Reunião (o Conselho Regional é a administração eleita do território) parte do estudo realizado em 2015 com um novo projeto que deverá começar em 2022. O projeto visa compartilhar e aprofundar o conhecimento científico e prático deste elemento do patrimônio cultural imaterial comum às áreas geográficas em questão. Os principais objetivos são preservar esses elementos patrimoniais e torná-los conhecidos e reconhecidos, aumentando assim seu valor para melhor transmiti-los. Reunirá equipes de profissionais, pesquisadores em história e antropologia, dançarinos e artistas para coletar e compartilhar dados antigos e atuais sobre esta forma emblemática de herança cultural da Reunião e conectá-la ao Oceano Índico. As raízes da Moring encontram-se na história da colonização da Ilha da Reunião, que foi marcada pela escravidão e seus movimentos de resistência quando, a partir do século XVII, escravos de Madagascar e da África chegaram à ilha.

1  La Patrie Créole, n.1966, 15/01/1907

2  Croche é uma das formas de combate encontradas na Ilha da Reunião, de destino comum com o moringue em termos de desaparecimento e renascimento.

3  O fim dos acordos franco-britânicos em 1882, que permitiram a chegada de indígenas contratados à Reunião, fez com que fosse necessário encontrar novos trabalhadores. A migração no início do século XX trouxe grupos de Moçambique, Madagascar e Comores. Esta visão é atestada pelo estado atual do conhecimento, reforçado por uma iconografia relativamente importante para o início do século XX, representando estes mesmos migrantes na sua chegada à Reunião.

4  Citado em Créolie, poésies réunionnaises, 1978, éditions de l’UDIR.

5  O instrumento musical Kayamb é uma caixa de ressonância feita de haste de choca e caules de flores de cana de açúcar, montado com cordas e cola e preenchido com sementes de açafrão marrom. O bob ou bobre é composto por um amplificador feito de ccabaça escavada, um guizo (kaskavel) feito de vacoa tecida cheia de sementes confluentes, um arco feito de madeira amarela e fibra de choca verde, que é golpeada por um bastão (tikouti) feito de madeira de escuna.

6  Témoignages du 30 septembre 1986 “Kan moin lété zènn Moring lété mon zé”, article de Yves Van Der Eecken

7  Obra que virou a bíblia do moringue.

8   Fuma e Dreinaza, 1992.

9  In “Jean René Dreinaza, le parcours atypique d’un réunionnais”, par Jean-Paul Géréone, Océan Editions, 2013, page 55.

10  Despacho do Ministério da Juventude e dos Esportes, Arrêté du ministère de la Jeunesse et des Sports sobre a instrução n°93-166 JS, de 13/09/96.

11  A associação através de seu site reuniu um grande número de documentos e artigos para escrever uma história da associação: https://moringueangola.wixsite.com/moring-angola?fbclid=IwAR29NjEkJVYeKHvjGjRCAR2Le8vrfo2HMjhuNNaVNwybg-qCkqPR4VNXDAI

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Um tocador de bobre. Cartão postal. Imagem do Acervo Loran Hoarau.

Os arcos são chamados de “bob” ou “bobre”, um instrumento encontrado em vários lugares (no Brasil também), não tanto em Madagascar que eu saiba, mas nas Seychelles, por exemplo.

Comentário de Emmanuel Souffrin

 

Loran Hoarau é historiador e Emmanuel Souffrin é etnólogo.

Referências bibliográficas:

Créolie, poésies réunionnaises. UDIR, 1978.

FUMA, S. et DREINAZA, J.R.  Le moring, art guerrier, ses origines afro malgaches, sa pratique à La Réunion. CDRHR- Université de La Réunion, 1992.

GÉRÉONE, Jean-Paul. Jean René Dreinaza, le parcours atypique d’un réunionnais. Océan Editions, 2013, p. 55.

HOARAU, Stéphane. “Le moring, danse réunionnaise de combat”, 2010. In: https://mondesfrancophones.com/mondes-indianoceaniques/le-moring-danse-reunionnaise-de-combat/

La Patrie Créole, Saint-Denis, n. 1966, 15 jan 1907.

VAN DER EEKEN, Yves. “Kan moin lété zènn Moring lété mon zé”. Témoignages du 30 septembre 1986.

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