MESTRE PAULO GOMES

MESTRE PAULO GOMES
Paulo Gomes. Fonte: Machado, 1998.

Por Marcelo Cardoso da Costa

Professor de Sociologia (IFRJ – Campus Duque de Caxias) e Doutorando em Memória Social (UNIRIO/PPGMS) E-mail: marcelosociologo@yahoo.com.br https://unirio.academia.edu/MarceloCosta

PAULO GOMES DA CRUZ, 1941-1998

Paulo Gomes da Cruz nasceu em 25 de janeiro de 1941, em Itabuna, sul da Bahia ‑ região do cacau e terra natal do escritor Jorge Amado. Veio para o Rio de Janeiro como muitos outros baianos que, segundo o Iphan (BRASIL, 2007), “vieram em busca de melhores oportunidades de vida.

Na capital carioca aprendeu capoeira com o Mestre Artur Emídio, também itabunense, que tinha uma academia em Bonsucesso, subúrbio carioca. Lá treinou e se formou mestre junto a outros nomes importantes como Leopoldina, Celso do Engenho da Rainha e Djalma Bandeira. Foi nessa academia que Paulo Gomes passou a ser respeitado e conhecido como Mestre Paulo Gomes, seu nome de batismo dentro da capoeira. Sua genealogia na capoeira é a seguinte: “Filho” de Mestre Artur Emídio (1930-2011), “Neto” do Mestre Paizinho (Teodoro Ramos) e “Bisneto” de Mestre Neném (MACHADO, 1998).

Na década de 1960, Mestre Paulo Gomes foi morar na Baixada Fluminense, mais precisamente em São João de Meriti, no bairro Coelho da Rocha. Nesta região, passou a ensinar a capoeira e a formar importantes capoeiristas, dentre eles, os mestres Valdir Sales (1942-2019) e Josias da Silva, que se transformaram em seus principais discípulos e fundaram importantes academias na Baixada, respectivamente, a Associação de Capoeira Valdir Sales, no município de São João de Meriti, e a Associação de Capoeira Josias da Silva, nos municípios de Nova Iguaçu e Duque de Caxias.

Mestre Paulo Gomes e sua esposa, Aureliana, em sua academia em São Paulo. Fonte: Machado, 1998.

Em uma outra fase, Mestre Paulo Gomes foi morar na capital paulista e lá, assim como ocorreu na Baixada Fluminense, foi um dos fundadores da capoeira, criando o Centro de Capoeira Ilha de Maré e, em 1985, a Associação do Brasil da Capoeira (ABRACAP). Mestre Paulo Gomes também foi assessor do ex- governador de São Paulo, Mário Covas, a quem ajudou a instituir a Lei Estadual nº 4.649, de 1985, definindo o dia 3 de agosto como “O Dia do Capoeirista” no Estado de São Paulo.

Mestre Paulo Gomes teve morte trágica em 1998. Ele foi assassinado aos 57 anos, em São Paulo, dentro de sua academia, localizada na Ilha da Maré. A motivação do assassinato teria sido uma dívida que o mestre tinha com uma locadora de automóveis (FOLHA DE SÃO PAULO, 1998). Segundo Mestre Ribas Machado (1998):

Na ocasião, durante a noite, a aula havia acabado de terminar e muitos alunos estavam no vestiário se trocando, quando um oficial de justiça, acompanhado de mais um sujeito, por razões que só quem estava lá sabe e pode falar com certeza, descarregou sua arma no Mestre que, passado um bom tempo, foi levado para o hospital, mas não resistiu… Durante a trágica ocorrência, dois outros capoeiras foram acertados de raspão, enquanto tentavam acalmar a confusão, são eles: Mestre Fernandão (dirigente da ABRACAP na época e tradicional capoeirista na Roda da Praça da República em São Paulo) e o Formado Cristhiano.

O velório de Mestre Paulo Gomes foi realizado na sala da academia, repleto de homenagens de mestres de capoeira, que fizeram discursos e uma roda em homenagem ao mestre. Ainda segundo Mestre Ribas Machado:

Em seguida, todos foram para o cemitério São Pedro (situado na Avenida Francisco Falconi, 837 ‑ Vila Alpina ‑ São Paulo) e, lá, na presença de mais mestres e capoeiristas (que foram se juntando desde o velório), o corpo foi enterrado ao som de lamentos, chulas, rezas e berimbaus…

Mestre Paulo Gomes deixou saudades no mundo da capoeira, agradecimentos de seus discípulos e contribuições em termos de memória da capoeira, como o livro Capoeira: a arte marcial brasileira, de 1982, e o CD Roda de Capoeira da Ilha de Maré.

Para saber mais:

MACHADO, Ribas. A Capoeira de São Paulo (e do Brasil) perde Mestre Paulo Gomes. Consultado em 21/10/2019. 1998. Disponível em: http://www.fontedogravata.org/1998/09/capoeira-de-sao-paulo-e-do-brasil-perde.html

FOLHA DE SÃO PAULO. Oficial de Justiça mata assessor de Covas. In: cotidiano. Consultado em 21/10/2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff24099832.htm

BRASIL. Ministério da Cultura. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Inventário para registro e salvaguarda da capoeira como patrimônio cultural do Brasil. Brasília: MEC, 2007.

OLIVEIRA, J. P.; LEAL, L. A. P. Capoeira, identidade e gênero: ensaios sobre a história social da capoeira no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2009.

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