No Rio de Janeiro, os blocos de embalo mais populares na segunda metade do séc. XX foram o Cacique de Ramos e o Bafo da Onça, com destaque na exibição da capoeira na avenida.
Por Juliana Pereira & Matthias Röhrig Assunção.
Os blocos de embalo são agremiações carnavalescas que não competem no desfile oficial com um enredo. De acordo com o Jornal do Brasil, o bloco de embalo “não possui enredo e os quesitos julgados são samba e empolgação, música e bateria. Mas não se preocupam com alegoria e estandarte”.
No Cacique de Ramos, a participação dos capoeiristas nos desfiles data provavelmente da década de 1960, mas ainda não dispomos da referência exata. Para os capoeiristas, o carnaval era, sobretudo, uma ocasião para jogar capoeira na rua, especialmente em blocos de embalo, como o Cacique, com mais liberdade, conforme afirma M. Burguês:
Que desfile, nada! No carnaval a gente ia era para a capoeira. Ninguém queria saber de desfilar. Às vezes [eu] desfilava no Cacique de Ramos, na ala da capoeira, que era comandada pelo Mestre Mintirinha. […] A gente jogava capoeira vestido de índio. […] Tocava berimbau e o pessoal jogava. Eram trinta, quarenta capoeiras. Era uma ala que o Mestre Mintirinha criou no Cacique de Ramos, na década de [19]70.”
M. Gegê, que também desfilou na ala de capoeira do Cacique, lembra que dela participavam “Mintirinha, Paulão, Touro, Zé Pedro, Luís Malhado e a turma da Bonfim também”. Ainda segundo ele, a turma se vestia de cacique, com a roupa própria do Cacique de Ramos, em preto e branco. Essa roupa era oferecida pelo bloco, pois era do interesse da agremiação vê-los em seu desfile. O recrutamento dos integrantes da ala acabou sendo também mais espontâneo: “Para ter segurança, o cara que tomava conta [da ala de capoeira] era o primeiro que chegava lá. […] Às vezes a gente tava passando e ouvia ‘Entra, entra aqui’, aí entrava”.
Contrariamente aos desfiles das escolas de samba, a bateria dos blocos de embalo fazia pausas durante o desfile pelas ruas do Centro. E, quando os integrantes “descansavam, a gente ia no meio”, complementa M. Gegê.
Tocavam berimbau, pandeiro e jogavam – em outras palavras, a apresentação no bloco de embalo aproximava-se de uma roda de capoeira tradicional.
Já o bloco Bafo da Onça contou com apresentação de capoeira pela primeira vez no carnaval de 1965, com uma ala de 18 componentes. No ano seguinte, o bloco teve seu contingente aumentado de 3 para 4 mil integrantes, distribuídos em 200 alas. No desfile, destaca-se “uma ala de capoeiras, que virão à frente do bloco, dando verdadeiras aulas de samba e da tradicional luta artística”. O Jornal dos Sports é um dos poucos a fornecer detalhes sobre os capoeiristas participantes do Bafo da Onça:
No setor da capoeira, contam com Otácilio, Lemi, Cirílo, Célio e Paulinho. Paulinho e Euclides, além de participar dos shows coreográficos de capoeira, são eméritos lutadores, sendo que Euclides ganhou, recentemente, o concurso de ‘melhor capoeirista’, merecendo o troféu ‘Berimbau de Prata’”.
Segundo M. Bebeto, o puxador de samba do Bafo da Onça, Osvaldo Nunes, era também capoeirista. Aluno de Zé Moleque, capoeira das antigas, que liderava a ala de capoeira do bloco. A revista Manchete elogiou a bateria do Bafo da Onça e a “audácia coreográfica de seus passistas”. Destacava que o bloco condensaria o que havia de melhor no carnaval de rua: “samba, acrobacia e balé”.
Além dos desfiles de carnaval, a capoeira estava inserida em outras atividades promovidas pelos blocos, como as noites folclóricas. Podemos afirmar que os blocos de embalo contribuíram muito para que a capoeira fosse reconhecida como uma manifestação importante do “folclore nacional”.
Bibliografia
Assunção, M., & Souza, C. E. (2019). Ginga na Avenida: a capoeira no carnaval carioca (1954-1976). Revista Nordestina de História do Brasil, 2(3), 83-103. https://doi.org/10.17648/2596-0334-v2i3-1491
“Blocos”. Jornal do Brasil, 23 de fevereiro de 1979, p. 46
Capoeira. Carnaval. Blocos de embalo. Cacique de Ramos. Bafo da Onça.


