A atual Praça XV de Novembro tem importância na história do Rio de Janeiro desde o período colonial. Segundo alguns cronistas, a capoeira carioca teria nascido ali.
Por Matthias Röhrig Assunção.
A Praia da Piaçaba
Pelas águas da Baía da Guanabara chegaram indígenas, invasores, colonizadores e centenas de milhares de africanos escravizados. Nos primeiros séculos da colonização, muitos escravos eram desembarcados perto do então chamado Largo do Paço. Segundo alguns cronistas, a capoeira carioca teria nascido ali, na antiga praia da Piaçaba, entre os negros de ganho, pescadores, mariscadores, peixeiros e carregadores.
O terreno em frente à praia foi ocupado pelos carmelitas e virou o Terreiro do Convento do Carmo. Os monges segundo o cronista Vivaldo Coaracy, tinham a fama de serem “turbulentos, desordeiros, e indisciplinados”. Sempre provocavam a intervenção das autoridades, por exemplo, quando não permitiam passagem de préstitos fúnebres pela frente do Convento e mandavam seus escravos armados de cacetes dissolver os cortejos a pau.
A capital do Brasil Colônia
Os frades cederam parte do terreno para o governo, que ali construiu o palácio dos governadores. Concluído em 1743, veio em seguida abrigar os vice-reis do Brasil. Atrás do Paço, onde hoje é localizado o palácio Tiradentes, havia a Quitanda dos Negros. Nesse beco, pretas minas, geralmente forras, vendiam seus quitutes. O Rio de Janeiro colonial se desenvolveu a partir dali, onde convergiam o porto, o comércio, o governo e a igreja. Esse espaço densamente povoado era disputado pela gente do porto, comerciantes, administradores, escravizados, forros e livres ‑ os fidalgos e a ralé.
O Vice-Rei certa vez reclamou da algazarra vinda da Quitanda, mas as pretas minas tinham o alvará da Câmara e ficaram. Em outras palavras, os grupos populares tentavam defender seu espaço no centro da cidade e, ali, o espaço de sociabilidade mais denso foi o Paço.
Mestre Valentim, filho de uma negra crioula e de um fidalgo português, foi o responsável pelo projeto do Chafariz, inaugurado em 1770, que abastecia os navios com a água encanada do rio Carioca. A construção, naquela época situada logo ao lado do cais, como aparece em muitas pinturas, hoje fica na parte central do largo.
O chafariz de Mestre Valentim no detalhe da gravura de Debret (1839). Acervo Museu Histórico Nacional / Ibram.
O pelourinho, outro monumento emblemático de poder e justiça senhorial, erguido no meio da praça na época colonial, não existe mais hoje. Com a chegada da Corte, o Paço virou residência oficial da realeza e sede do governo. Mas o rei, e depois dele os imperadores do Brasil, preferiram morar na Quinta da Boa Vista, mais sossegada.
O Largo do Paço de fato constituía um espaço de sociabilidade importante para todos os moradores e foi retratado por viajantes e cronistas. A gravura de Friedrich Salathé (1834), baseada em aquarela de seu amigo Johann Jacob Steinmann, retrata vários grupos sociais ocupando o Paço, entre eles, dois moleques engajados num jogo acrobático que lembra alguma coisa da movimentação da capoeira.
Detalhe da gravura
“dois moleques engajados num jogo acrobático que lembra alguma coisa da movimentação da capoeira.”
Referências:
Antonio Colchete Filho. Praça XV. Projetos do espaço público. Rio de Janeiro: Sete Letras, 2008.
De los Rios Filho, Alfonso Morales. O Rio de Janeiro Imperial. 2 ed., Rio: Topbooks, 2000 (1 ed. 1946).
Largo do Paço. Gravura de Friedrich Salathé, sobre aquarela de Johann Steinmann. Coleção da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Vivaldo Coaracy. Memórias da Cidade do Rio de Janeiro. Belo Horizonte e São Paulo: Itatiaia e EdUSP, 1988.


