Desafios da Capoeira na Contemporaneidade foi uma palestra proferida no seminário 1ª VMB Científico.
Por Mestre Luiz Renato Vieira.
O seminário 1ª Volta ao Mundo Bambas Científico foi realizado em Brasília, em 25/06/2025, no contexto do VMB9 ─ a 9ª edição do Volta ao Mundo Bambas.*
* Agradeço à Renata Daflon pelo cuidadoso trabalho de transcrição e ao Prof. Dr. Matthias Röhrig Assunção pela
revisão histórica. Meus agradecimentos também ao Prof. Leonardo Bruno Ludovico (Mestre Secão), diretor do
Departamento Científico do VMB pelo convite para ministrar a palestra. Eventuais omissões ou equívocos ou omissões
existentes no texto são de minha inteira responsabilidade.
A competição Volta do Mundo – Bambas, conhecida como VMB, teve sua primeira edição principal em agosto de 2022, no Rio de Janeiro, com um formato inédito que trouxe juízes, transmissões de alta qualidade e premiação financeira para a capoeira.
Desde então, já foram realizadas nove edições do VMB até junho de 2025, incluindo eventos como VMB1 (agosto de 2022, Rio de Janeiro), VMB50K (julho de 2023, Pão de Açúcar, Rio de Janeiro), VMB4 (janeiro de 2024, arena olímpica no Rio com grande público e transmissão ao vivo), VMB5 (abril de 2024, São Paulo), VMB6 (julho de 2024, Los Angeles, primeira edição internacional), VMB7 e VMB8 (Brasília, 2024), chegando ao VMB9 em junho de 2025 também em Brasília.
O evento tem alcançado projeção global: contando com seletivas na Suécia, estreia internacional nos Estados Unidos e edições em importantes palcos brasileiros, o VMB se consolidou como a maior competição de capoeira em alta performance do mundo, movimentando tanto o meio cultural quanto esportivo da capoeiragem.
VMB9 – Premiação da categoria peso leve feminino:
Kitana (campeã) e Lili.
Alguns autores na antropologia falam de lentes que a cultura constrói, com as quais a gente observa o mundo. A nossa cultura é uma lente e lentes diferentes produzem imagens diferentes a partir de olhares para a natureza e para as relações sociais ─ e a capoeira me ajudou a desenvolver essa capacidade perceptiva analítica.
Um pouco do que eu vou tentar apresentar vem do fato de, como cientista social já com 40 anos de carreira, consigo me descolar de determinados aparatos conceituais e olhar a dinâmica como um todo, tentando fundir a análise histórica com o estudo do tempo presente.
A história da capoeira hoje, principalmente quando se aborda o final do século o século XIX e o início do século XX, tem um nível de sofisticação enorme. Os pesquisadores que trabalharam com fonte primária, que é a busca em arquivo, fizeram levantamentos maravilhosos. Conseguiram mapear muitas outras informações minuciosas, como por exemplo, a etnicidade dos africanos presos por capoeira no início do século XIX e as armas que usavam, ou a chegada de baianos na Corte depois de 1860 e assim por diante.
Atualmente, nós temos desafios que correm paralelamente a essa tarefa da busca da fonte primária, são desafios interpretativos e analíticos, de tentar entender, a partir dessa imensidão de informações, o tempo presente. Tentar perceber de que maneira esse olhar sobre a história pode nos proporcionar reflexões sobre a contemporaneidade, capazes de nos encaminhar para aquilo que nós queremos, porque não há sentido em estudar história, sociologia, antropologia, as ciências da cultura, se não for para intervir nessas realidades de forma incisiva na construção daquilo que desejamos, que é acesso à cultura, a sociedades mais democráticas e, falando do nosso caso, em que nós, capoeiristas, tenhamos um compartilhamento das informações disponíveis, enriquecendo as ferramentas que a capoeira nos proporciona para aplicar todo esse conhecimento, por exemplo, levando para pessoas idosas essa maravilha que é a capoeira, de maneira cada vez mais qualificada.
É para isso que serve a informação, para conhecer a história, as ferramentas disponíveis e analisar os desafios contemporâneos, cada vez de forma mais elaborada, mais qualificada e rica, nos aproximando dos nossos objetivos, que a gente define a partir da nossa visão ética.
Nós estamos aqui na organização de uma proposta de competição que adota referenciais internacionais de qualidade de organização, em que os atletas têm oportunidade formativa, têm um aparato de cuidado responsável e isso precisa se espalhar para a sociedade. Nós temos objetivos dos quais nós estamos nos aproximando.
Na universidade, quando realizamos nossas pesquisas, estudos e aulas, estamos indo nessa direção, porque temos uma afinidade ética, um compromisso ético com uma visão de capoeira que se desenvolve com qualidade, que busca a participação, o desenvolvimento de conceitos e o desempenho. Mas que busca também, no mesmo conjunto de características culturais, espaço para o idoso, para a pessoa com deficiência, para todos os segmentos minoritários, que fazem suas lutas identitárias, a partir de um olhar plural.
Eu acredito que o trabalho bem-feito no âmbito da capoeira não pode gerar qualquer tipo de conclusão responsável que aponte para a padronização ou objetificação. Porque o que se extrai de um trabalho bem-feito em um setor específico é a qualidade e a responsabilidade com que ele é feito, e não a sua absolutização, no nosso caso, a ideia de competição atravessando todos os ambientes da capoeira. Antes, temos que voltar a nossa atenção para a qualidade da organização, a responsabilidade, o direito à voz, a pluralidade dos participantes e a autoidentificação ─ as pessoas se sentirem membros, participantes, integradas.
Estudar história só faz sentido quando se buscam referências para o presente. Não é entender a história como a ciência do passado, mas como a ciência do futuro, porque a partir dela temos parâmetros comparativos e podemos ajustar nossos caminhos rumo aos objetivos que definimos.
De acordo com Eric Hobsbawm1, o tempo presente corresponde ao período em que os acontecimentos em curso forçam o historiador a reavaliar a maneira como interpreta o passado. Isso significa que os eventos contemporâneos impõem uma revisão das perspectivas históricas, das classificações cronológicas e das narrativas previamente estabelecidas, pois é apenas à luz das transformações atuais que o passado adquire novos sentidos e relevância.
1 Eric J. Hobsbawm, “Un historien et son temps présent”. In Institut d’Histoire du Temps Présent. Ecrire l’histoire du temps présent. Paris: CNRS Ed., 1993.
Uma rápida periodização da história da capoeira
Desprezo e Perseguição
Existe um longo período inicial desde o final do período colonial e durante o Império do Brasil em que já se identificam as primeiras manifestações do que nós chamamos hoje de capoeira e que suscitava, desde o início o desprezo das elites pelas manifestações culturais do povo negro da diáspora como também as primeiras ações repressivas por parte do Estado, principalmente no Rio de Janeiro.
Em seguida, temos a perseguição se acentua sobretudo no início da República, quando temos a imposição de um novo modelo de sociedade. O Brasil passa então a não aceitar a sua condição de maior país escravocrata do mundo, com uma enorme população negra fora da África, o país que teve o maior período de escravidão moderna no mundo, o país para o qual foi transportado o maior número de escravizados do mundo. Após a Abolição e, logo em seguida à Proclamação da República, o país procura se ver como um país europeizado, a ponto de tentar resolver questões vinculadas ao mercado de trabalho, ocupação do campo e desenvolvimento agrário com a recepção de imigrantes europeus, mesmo com o contingente gigantesco de uma população ex-escravizada disponível. Essa era uma mão de obra que o país se recusava a aceitar, porque representava uma integração, e a lógica da escravidão no Brasil nunca foi de integração, ela foi de exploração.
A perseguição à capoeira de certa forma simbolizou as ações do poder republicano emergente na direção da modernidade e na busca de extinção e extirpação de símbolos do Brasil escravocrata. O Brasil não se aceitava historicamente, não se encontrava com a sua história, e perseguir a capoeira era uma forma de lutar contra esse passado da pior maneira possível, reprimindo um passado extremamente recente.
Essa perseguição foi brutal e é esse o período mais documentado na história da capoeira, porque uma coisa que o mundo contemporâneo faz muito bem é a organização do Estado policial: enquanto persiste a violência em um estado policial, existem os registros da violência. Os principais registros que a capoeira proporcionou foram nesse período, são aqueles referentes a prisões e à ocorrência de atos violentos nas cidades, principalmente no Rio de Janeiro.
Dependendo da cidade, esse período se estende da última década do século XIX até meados da década de 1930. No Rio de Janeiro, foi aproximadamente até meados da década de 1920, quando não há mais ocorrências de prisões por capoeira, embora ainda houvesse a lei em vigor, que só foi definitivamente alterada em 1941, com o novo Código Penal. Em outros lugares isso aconteceu de um modo um pouco diferente.
Construção autônoma
Arrefecendo a sanha repressora, tem início um período que chamei de construção autônoma. É o momento em que não existe mais a atuação tão violenta do Estado na tentativa de extirpar a capoeira, mas tampouco existe ainda uma forma de reconhecimento (até encontramos ações pontuais de reconhecimento, mas não de forma sistemática).
O que se tem a partir da década de 1930 e até os anos 1940 e 50 ─ com exceção especificamente do movimento ocorrido em Salvador, com Mestre Bimba e com Mestre Pastinha ─ são leituras seletivas da luta capoeira. Tentativas de construção de métodos marciais, de modalidades de luta, a partir da capoeira.
Temos a capoeira sem berimbau, os registros de Mário Aleixo, os de Aníbal Burlamaqui, são várias propostas de sistematização da luta capoeira. Como se buscasse extrair da modalidade ─ da sua complexidade arte, que inclui luta, jogo, dança e musicalidade ─ apenas elementos específicos de luta, mas luta como defesa pessoal (não necessariamente luta no formato esportivo, que pudesse ser treinada, promover saúde e proporcionar realização de competições).
Apoio governamental
A partir das décadas de 1970 e 80, acontece o processo de expansão da capoeira, tanto no plano nacional como crescimento para o mundo, para muitas regiões com uma diferença de poucos anos: a expansão para os Estados Unidos, a entrada na Europa a partir de Portugal, sempre seguindo o sentido de todos os fluxos migratórios, que é o fluxo do dinheiro, o fluxo da oportunidade de trabalho. Essa foi a lógica da expansão da capoeira, até que as últimas fronteiras foram, curiosamente, a América Latina e, mais recentemente, a África.
Hoje, algumas fronteiras da expansão internacional da capoeira estão na América Latina, com países onde a capoeira ainda tem muito para crescer, e na África. Na Ásia ela já se expandiu há muito tempo e é muito forte. Esse fenômeno da capoeira como cultura popular internacional é um acontecimento concreto, que nos impõe muitos elementos para reflexão, porque esse movimento aconteceu como construção autônoma dos capoeiristas.
Analisando a expansão das artes marciais orientais, a maneira como elas cresceram se expandiram pelo mundo, percebe-se que, em muitos casos, foram projetos governamentais. No caso do judô isso é explícito. O judô é uma construção a partir de modalidades de luta tradicionais que, por uma convocação governamental, surge como uma modalidade de luta para proporcionar elementos pedagógicos e competições seguras.
No caso da capoeira, ela surge de maneira multifocal, a partir de referências dos atores da expansão da capoeira pelo mundo, que foram os grupos e os mestres. Por isso nós enfrentamos hoje muitos dilemas na expansão da capoeira, que são difíceis resolver se a gente não levar em conta seu modelo de crescimento. A variedade de sistemas de graduação na capoeira, por exemplo, é consequência desse modelo de expansão e fica a cargo da história da capoeira mostrar que, regional e coletivamente, as graduações, assim como as denominações, a terminologia utilizada, a taxonomia, a forma de classificar os golpes e a maneira como nós os chamamos, fazem parte de identidades que são identidades locais e identidades de grupo. Ou seja, como identidades regionais que são, não se constituem apenas numa lista de nomes ou numa sequência de cordas, mas têm a ver com a história daquele segmento. A ideia é que não se trata de apenas padronizar ou criar um modelo universal, como se fosse uma espécie de língua unificada, um “esperanto da capoeira”. Essa é uma ilusão muito perigosa, porque despreza os fundamentos identitários das coletividades que organizaram a capoeira. Na verdade, em alguns casos, melhor seria dizer as capoeiras.
O apoio governamental surge na capoeira em um momento muito específico e ele tem data de nascimento. A primeira política pública sistemática organizada no Brasil aconteceu em 2004 e ela se expressou nessa fala do então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, em Genebra, em 19/08/2004: “A capoeira é uma afirmação existencial do povo negro no contexto do escravagismo e do racismo e da dominação, presentes em momentos diversos da sociedade brasileira. No jogo das gingas e na mandala da roda da capoeira está a história do povo negro na diáspora.”2
Nós vamos considerar esse discurso do ministro Gil, como uma espécie de certidão de nascimento das políticas públicas, no plano federal, para a capoeira. É o primeiro momento em que ela é alçada à condição de tema para uma política federal, de maneira sistemática e duradoura..
2 GIL, Gilberto. Discurso em homenagem a Sérgio Vieira Mello. Genebra, 2004. Disponível em: <http://www2.cultura.gov.br/site/2004/08/19/ministro-da-cultura-gilberto-gil-na-homenagem-a-sergio-vieira-de-mello/>.
Patrimônio imaterial e salvaguarda
Ao longo dos anos seguintes temos a construção de um processo bem complexo de organização que toma três localidades como referência ─ Rio de Janeiro, Salvador e Recife ─ e são colocados alguns desafios para o registro de patrimônio imaterial. O registro de um bem cultural imaterial se volta para a construção do passo seguinte, que estão as medidas de salvaguarda. Não se trata de uma mera curiosidade científica e nem um ato simbólico do Estado, ela tem uma finalidade muito bem estabelecida: o registro de patrimônio cultural imaterial daqueles bens que a sociedade elege como prioritários para as políticas públicas de preservação e essa preservação se chama salvaguarda, com uma apresentação específica e peculiaridades que seguem parâmetros definidos internacionalmente.
A salvaguarda valoriza a manifestação com o viés da valorização dos detentores. Uma ideia bastante diferente da tradicional valorização cultural a partir da exposição no museu ou de um conteúdo pedagógico. Aqui nós temos a ideia de cultura viva, diferente da política cultural que promove a cultura popular como bem exótico.
Ao promover o registro de um bem cultural imaterial, se pretende que o produtor do bem consiga viver daquele fazer, porque desta forma aquilo tudo será preservado. Quando se considera o fazer, são identificadas várias circunstâncias que se movimentam com a história e que precisam ser equacionadas, como as questões legais, ambientais, sanitárias e econômicas e é preciso, então, achar formas de conciliá-las. Um exemplo são as paneleiras de Goiabeiras que precisam manter o seu fazer tradicional, mas existe um problema grave de poluição no rio que fornece a argila usada para produção da panela de barro, ou seja, existe um problema no plano ambiental que precisa ser discutido junto com a cultura, porque as políticas de salvaguarda são transversais. No caso da capoeira, isso se manifesta na discussão do tema da profissionalização. O que a salvaguarda faz é procurar manter vivas e atuantes as pessoas que mantém a cultura viva, não apenas para que essa cultura esteja disponível como uma lembrança do passado, mas para que ela continue mudando. Garantir a diversidade é trabalhar com qualidade e fazer as coisas muito bem feitas para assegurar que mestres e mestras consigam viver do seu ofício. Esse é um trabalho de equipe em que todos precisam se engajar.
Quando se fala que as políticas de salvaguarda são transversais é para chamar atenção para o fato de que são necessárias não apenas de ações específicas para a promoção da capoeira. A capoeira ganha muito mais quando se transversaliza a sua participação nas ações coletivas da sociedade, ou seja, quando se coloca aquela semente da capoeira na escola ou no projeto de saúde dos idosos no atendimento primário, básico, de saúde, por exemplo.
É preciso ir além das políticas restritas a projetos e editais, porque existe um ativo importante no mundo da capoeira que se chama diversidade. É muito mais interessante que a manifestação da capoeira conviva com dezenas de outras e que todas elas tenham essa mesma força. Esse é um sonho para nós capoeiristas: que a competição de capoeira seja um grande espetáculo, mas que as atividades culturais de capoeira sejam outros grandes espetáculos. Esse é o lugar que a capoeira merece ocupar, porque é um lugar que preserva esse ativo importante que é a diversidade.
A esportivização, as competições e a navegação social da capoeira
Eu gosto de uma concepção teórica que tento desenvolver para trazer para o campo da capoeira: é a ideia de navegação social, utilizada por um antropólogo brasileiro chamado Roberto da Mata. Ela explica muito sobre o Brasil e sobre como a capoeira sobreviveu e existe hoje com a força que ela tem. É o fato de que ela consegue, não por uma característica mística, mas por sua complexidade, por sua riqueza cultural, se amoldar a ambientes absolutamente diferenciados e sobreviver com essas transformações. Por exemplo, o que Mestre Bimba fez é um exercício fantástico de navegação social. Foi o primeiro grande esforço de adequação da capoeira, principalmente a partir de uma referência ética, técnica e pedagógica, aos parâmetros da classe média urbana, no caso dele, em Salvador. Esse ajuste que ele fez, a partir de 1928, deu à capoeira regional a dimensão que ela precisava para explodir como fenômeno cultural no mundo. Mestre Bimba fez uma coisa, hoje aparentemente banal, que foi empacotar a capoeira. Ele organizou uma sequência com oito etapas, com uma sistemática em que, a partir daquele aprendizado, é possível dar aulas de capoeira, e não precisa ser um exímio capoeirista, nem de grande habilidade, precisa apenas memorizar aquelas sequências e, sem nenhum outro fundamento pedagógico, consegue ministrar uma aula de capoeira e uma belíssima aula!
Muitas lutas orientais também têm isso, muito antes da capoeira: Essa capacidade de traduzir códigos e linguagens, rompendo limitações de estratos sociais, trazendo para uma manifestação cultural segmentos que antes se sentiam excluídos dela. Mestre Bimba foi um gênio na navegação social.
Com Sinhozinho (1891-1962), temos um dos mais interessantes esforços de marcialização da capoeira, uma tradução da capoeiragem para uma linguagem de defesa pessoal, está no livro do Burlamaqui.
Uma outra via da promoção da navegação social se deu com Mestre Pastinha, que atendeu a uma outra demanda de um segmento que buscava engajamento político. Na academia dele, ele recebeu Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Ele tinha Mário Cravo e Jorge Amado como pessoas muito próximas. Ele queria navegar por outros caminhos e de fato navegou e deixou o seu trabalho sistematizado. Pastinha foi uma figura cuja habilidade como capoeirista ninguém discute, se foi um grande mandingueiro, um grande capoeirista, ou não, porque a obra à qual ele se dedicou foi outra, foi da consagração da capoeira como manifestação cultural, como uma proposta de fortalecimento das identidades culturais populares. Um caminho bastante diferente daquele proposto por Mestre Bimba, mas igualmente importante do ponto de vista da construção do que nós temos hoje.
O que eu estou fazendo aqui, na forma de um esboço ─ que eu chamei de história do presente da capoeira ─ é partir dos desafios que enfrentamos hoje, olhando para o passado e tentando identificar o que esses mestres fizeram no sentido de construir a realidade que nós temos hoje.
Como estamos tratando de competição, existe um caso específico, que eu não poderia deixar de citar: é o famoso caso do Ciríaco. Nas décadas de 1910 e de 1920, as artes marciais chegaram ao Brasil com muita força. Existem vários registros de de lutadores japoneses que circulavam pelo Brasil. Inclusive, no Rio de Janeiro, nessa época, a Marinha havia adotado o jiu-jitsu como modalidade de luta. No entanto, no mesmo período, muitos intelectuais brasileiros, escritores e jornalistas, já travavam uma discussão intensa sobre a questão identidade nacional, ao mesmo tempo em que a capoeiragem aos poucos saía daquela sombra da criminalidade. A capoeira começava a despertar interesse sobre o seu potencial desportivo e marcial (mas ainda não pedagógico). A opção da Marinha pelo jiu-jitsu como modelo de arte marcial na formação dos seus militares desencadeou, então, uma enxurrada de críticas de muitos jornais. Pouco tempo depois, em 1909, um lutador japonês que vinha se destacando em desafios, muito comuns no Brasil, lutou contra o Ciríaco que, surpreendentemente, ganhou a luta com apenas um golpe. Essa luta teve grande repercussão.
Esse acontecimento contribuiu muito para o processo de releitura da capoeira. Como nessa época ainda vigorava a lei que punia a prática da capoeira em ruas e praças públicas, o evento foi realizado em ambiente fechado, o que burlava a possibilidade de punição. Isso mostra que é preciso muito cuidado quando se fala de repressão à capoeira nessa época. Muito provavelmente a repressão estava mais associada a perfis socioculturais e étnicos, tornando-se muito mais uma perseguição voltada para o racismo do que da manifestação cultural em si, quando praticada em outros contextos.
Dilemas da institucionalização
Nós estamos falando de um processo mais amplo, que pode ser chamado de institucionalização da capoeira. Temos muitos desafios pela frente e realizar boas competições de capoeira é apenas um deles. Discutir a questão da regulamentação, quais são os limites, quais são os pontos de que exclusivamente o mestre de capoeira pode se ocupar, mas também debater quais são as noções de capoeira que um professor de educação física pode ensinar na escola e, desta forma, contribuir para que o mestre de capoeira tenha mais tarde um aluno que se interesse e queira desenvolver seus conhecimentos. Esse letramento básico em capoeira precisa ser feito necessariamente pelo mestre de capoeira? Precisamos lidar com esse debate de forma corajosa, pensando no futuro.
Nós temos hoje um cenário que insere a capoeira em uma sociedade complexa, ao contrário do que acontecia na sua origem, quando era praticada por um segmento etnicamente bem definido e excluído socialmente. Atualmente a capoeira se transversaliza e aparece em todos os contextos socioculturais e econômicos. A capoeira apresenta hoje um nível de diversidade muito maior do que se poderia imaginar há 50 anos. Estar aberto para pensar a capoeira no contexto da diversidade é muito importante para lidar com esses dilemas. Isso nunca foi tão necessário, porque senão nós corremos muito risco de desenvolver visões excludentes e que não correspondem à realidade. Desenvolver uma percepção restritiva só nos leva a perder oportunidades, porque não há como controlar o desenvolvimento da capoeira e ela vai continuar sendo rica e diversa.
A internacionalização, durante muito tempo, foi o que havia de mais cobiçado e valioso na capoeira, a expansão para o exterior. Agora, esse momento é quase passado. Nós vivemos uma época em que, a partir das experiências da expansão anterior da capoeira, aprimoramos diferentes olhares sobre a capoeira que nós fazemos no Brasil ─ mais uma vez a história do presente. Essas experiências expandidas no exterior ajudaram muito no desenvolvimento da capoeira no cenário contemporâneo.
Temos um debate hoje muito interessante no poder legislativo e a recomendação que eu tenho a fazer é que os capoeiristas tenham participação direta e busquem informações. Eu sou capoeirista, sou mestre de capoeira, sou servidor do Senado Federal, onde trabalho como consultor legislativo, carreira especializada na discussão de proposições e vejo os movimentos acontecendo. E, olhando o processo de organização da capoeira dessa perspectiva, tenho muita clareza sobre uma coisa: cada um de nós precisa conhecer como as coisas funcionam e construir seu próprio entendimento. As responsabilidades não podem ser simplesmente delegadas para o Estado, é necessária a efetiva mobilização autônoma dos grupos e demais entidades.
Trazendo o debate para o contexto do evento da competição, temos que compreender o lugar e as possibilidades que as competições de capoeira têm no contexto contemporâneo, indo além da dimensão factual do espetáculo, de quem ganhou ou quem perdeu, de quantas visualizações serão alcançadas no YouTube. É entender como isso se encaixa em uma gramática complexa, junto a outros campos da capoeiragem, que precisam também desse desenvolvimento e, igualmente, demandam qualidade, organização e profissionalismo.
É autor dos livros O jogo da capoeira: corpo e cultura popular no Brasil (Rio de Janeiro: Sprint, 1995) e A capoeira e as políticas de salvaguarda do patrimônio imaterial, Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2012) e de diversos artigos sobre o tema. Foi consultor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) durante o processo de registro da capoeira como patrimônio cultural imaterial (2008) e palestrante dos encontros do projeto Capoeira Viva, do Ministério da Cultura (2010). Desde 2003, é Consultor Legislativo do Senado Federal, em Brasília com atuação nas áreas de assistência social, minorias, desporto, cultura e pronunciamentos.




